segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Capítulo 19 - Troca


O cano da arma contra a minha cabeça é incrivelmente frio. Ao contrário das armas que Dan costumava usar, ela aparentemente não tem silenciador. Realmente, a intenção de Silas é assustar todos os homens que se entretêm se divertindo no térreo. Talvez eles tenham filhos e esposas, e afinal têm sentimentos, pelo menos medo, a mais humana das sensações.

Eu não sei se é medo o que sinto. É um misto de raiva e orgulho. A vontade de morrer com dignidade. Mas deve ser o que Marcelo sente, estarrecido em sua poltrona, olhando para a arma em minha cabeça com horror, sem pronunciar qualquer palavra, no entanto sem mais conseguir reprimir suas lágrimas, as quais caem em silêncio. Eu espero que o libertem depois de me matarem, talvez esse seja meu último pedido, embora eu não imagine que haverá um.

Encaro o olhar de Silas. Ele parece calmo, quase entediado, olhando repetidamente para o seu relógio de pulso. Inclinando minha cabeça, embora seja incômodo com a arma contra ela, vejo que já passam das quatorze horas. Não imagino como o tempo possa ter passado tão rápido. Pelo menos eu devo estar interrompendo algum almoço de negócios de Silas, e isso me parece uma pequena, mas doce vingança.

__O que você quer de mim? __Pergunto, não por me importar com o ritmo que a nossa conversa tomará, mas talvez tentando acabar com o sofrimento de Marcelo que parece atormentado em seu assento.

__Você sabe o que eu quero. E nem me venha com a estória que contou para os meus agentes. Eles gravaram a conversinha de vocês. Patético. Minha parte preferida é o final, eu não ouço nada, mas suponho que Dan tenha aparecido. Mas isso não me importa. Não há porque proteger seus pais, eles não protegerão você. Eu quero saber onde eles estão.

__O que você me daria em troca?

__Nada que você pudesse usufruir em vida, infelizmente.

__A vida dele. __Ofereço olhando para Marcelo que parece distante em seu desespero. Ele se agita ao me ouvir fazer referência a ele e começa a balbuciar algo que não posso diferenciar entre um sim ou um não.

__Hum... __Murmura Silas parecendo subitamente interessado na minha aparente vontade de colaborar. __Dependendo da importância do que você me disser. Mas temos que analisar, ele já ouviu e viu muito. Outra coisa?

__A vida dele ou nada. __Concluo decidida, embora não faça idéia do que vá fazer. Não tenho nada a dizer, e sou incapaz de inventar qualquer mentira convincente. Nunca fui muito boa em mentiras, muito menos com uma arma contra minha cabeça.

__Não. __Marcelo diz com grande dificuldade, com os olhos avermelhados pelas lágrimas. Seus lábios sempre rosados, agora arroxeados e trêmulos. __Não. Eu não saio... daqui sem você... Manu.

Eu sorrio com seu esforço e sua coragem, e me pergunto se realmente mereço tanto amor e fidelidade. Marcelo. Seu rosto infantil, angelical, jamais tocado pela dor. Acostumado, assim como eu era há quase um mês, a um mundo perfeito. Sempre o garoto mais bonito, divertido e inteligente da escola, por quem todas as garotas suspiravam.

Eu não mereço seu amor incondicional. A culpa por ser responsável pela sua dor me atormenta e o que me faltava para me sentir a pior pessoa do mundo já me repleta. Não sou uma boa pessoa, mas não posso mudar isso.

­­__Concordo com o garoto. Quem está com uma arma na cabeça é você, e acho que não tem qualquer escolha. É melhor você me dizer logo onde estão seus pais.

__Você já sabe a resposta. Para quê prolongar isso?! Aposto que a sua agenda está lotada hoje à tarde. __Sorrio encarando seu olhar frio. __E o meu caro amigo tem um jogo de futebol para assistir. __Já não mais sorrindo, me viro para Marcelo que me encara assustado, encolhido novamente em sua poltrona. __Eu sinto muito, Marcelo.

__Não, pequena. Reservei o meu dia todo para você. Já esperava encontrá-la há alguns dias e não quero perder nada desse momento especial. Você demorou, mas não resistiu a ligar para o antigo namorado. E o Orlando pode perder o jogo hoje. __Afirma acenando a cabeça para o homem que estremece ainda com a arma contra mim. __Você disse que me contaria algo em troca da vida dele. Então é melhor começar. __Conclui dando um sinal quase imperceptível a outro empregado, o qual levanta Marcelo de sua cadeira, e me surpreendo com a facilidade com que consegue, como se ele não pesasse nada.

Encontro o olhar de Marcelo, quando o homem o ajoelha no centro da sala, pressionando uma arma contra sua cabeça, e nele só encontro horror. Eu o vejo começar a chorar abertamente, sem conseguir nem ao menos apelar por sua vida, e não me impeço de acompanhá-lo no seu sofrimento.

__Ele não tem nada a ver com isso! __Exclamo em desespero, com minha voz entrecortada pelas lágrimas que rolam pela minha face. No entanto, me esforço em recuperar a calma, o que me parece quase impossível, pois apenas assim poderei negociar com Silas. __Você conseguirá mais se pedir um resgate, ele não falará nada. Eu juro!

__O tempo está passando, criança. O que você tinha a dizer?

__Eu...Eu menti. Eu só sei que meus pais estão mortos. Eu não sei...__Mas minha resposta é interrompida por um grito abafado de dor de Marcelo quando o guarda o atinge com uma coronhada na nuca. Seu corpo tomba ao chão, e um filete de sangue escorre de sua boca, misturando-se às suas lágrimas que se derramam em silêncio. __Pare! Pare! __Ouço-me gritar desesperada. __Ele não tem culpa! Pelo amor de Deus!

__Quem tem culpa, criança? Não estou procurando culpados, mas respostas. Ainda se lembra da minha pergunta? Ou eu peço para o Caio perguntar ao seu namorado? Mas ele não é muito educado como você pôde perceber.

Olho para a direção de Marcelo e do homem a quem Silas se refere como Caio. Caio levanta Marcelo novamente à posição original sobre seus joelhos, o qual me olha num misto de súplica e orgulho ferido. E então eu choro por não poder enxugar suas lágrimas com meus beijos, e por ter sido sua causadora. Eu choro por tê-lo traído, quando ele se manteve fiel à minha memória. Choro por não ter me entregue a ele quando tive a oportunidade. Choro por não ter sido a garota certa para ele e por estar destruindo sua vida.

Meu silêncio faz Caio golpear Marcelo novamente, agora com o pé, fazendo-o voltar ao chão. E a dor que me atinge, me faz me desvencilhar da arma que permanece contra minha cabeça e correr até ele, embora eu sinta minha respiração falhar.

__Marcelo... __Sussurro contra seu ouvido. Sua resposta é apenas virar o rosto na minha direção, sem conseguir se levantar. Eu beijo seu rosto, seus lábios feridos e acaricio seus cabelos loiros úmidos, como uma mãe desesperada na tentativa de proteger seu filho. Ouço-o balbuciar “Tudo bem”, mas logo meu corpo é puxado e sou colocada novamente na minha cadeira, com a arma contra meu rosto.

__Eu não sei nada sobre meus pais... Não! Por favor!__Exclamo quando Caio chuta o corpo de Marcelo ainda caído no chão, fazendo-o apenas soltar um som abafado. Eu não sei o que dizer, mas percebo que apenas uma mentira poderá adiar a tortura de Marcelo. __Mas eu sei sobre as pessoas que querem derrubar você, Silas.

__Tudo bem. __Silas murmura para Caio que tenta levantar Marcelo, no entanto ao ver que este não consegue se levantar, decide deixá-lo deitado. __Vamos ver. O que você sabe que eu possa ainda não saber?

__No escritório do meu pai havia alguns cofres.

__Incrível. Nós o esvaziamos quando ele aparentemente morreu.

__Mas há um que nunca foi aberto... __Continuo com minha voz falhando.

Silas parece em dúvida e avalia seus subalternos com o olhar, mas logo recupera sua confiança.

__Não é novidade para mim. Exceto se você conseguiu abrir. O que eu duvido.

__É verdade. __Respondo trêmula, desistindo de contar alguma mentira que apenas enfurecerá Silas. Não tenho nada de importante para lhe contar, mas não posso permitir que torturem Marcelo novamente. A arma mais apertada contra meu rosto me impede de virar e observá-lo, no entanto, não consigo ouvir qualquer som e imagino que ele permaneça inerte no chão. __Mas eu posso dar possíveis senhas do que era importante para o meu pai.

__Obrigado pela oferta generosa, mas como eu disse, conheço seu pai melhor que você e um dos melhores técnicos de cofres está chegando para abri-lo. É só isso?

Eu o encaro apavorada. Marcelo nem ainda consegue se levantar, e a idéia de poderem machucá-lo novamente me aterroriza. No entanto, eles não parecem se importar, pois ouço outro som abafado vindo de sua direção. Tento me libertar para impedi-los, contudo Orlando puxa meus cabelos dolorosamente, segurando meu rosto com força e dizendo que Silas está esperando uma resposta.

__Sobre Dan! __Exclamo com a voz embargada, enojada comigo mesma, ao ouvir outro som de Marcelo. __Você quer se vingar dele! E eu sei algumas coisas que podem ajudá-lo.

__Hum... Por exemplo? __Silas pergunta parecendo quase interessado.

__Eu... Sobre o passado dele. Quem era antes de ser Dan...__Gaguejo trêmula, pedindo que meu algoz me mate antes que eu prossiga, no entanto vejo seu aperto diminuir quando ele começa a prestar atenção em minhas palavras, obrigando-me a continuar antes que espanquem Marcelo novamente. __Ele matou o pai a facadas por ter agredido sua mãe, a qual depois se matou. Deve ser fácil encontrar os registros. Ele devia ter uns doze anos.

__E...__Continuo quando a sala permanece em silêncio, procurando as palavras que possam distrair Silas. __Eu sei...__Mas não termino a frase, uma vez que somos subitamente interrompidos por dois homens que entram pela porta, os quais reconheço como os porteiros que vigiavam o lado externo da casa quando chegamos, além do outro que guardava a porta do escritório de Silas. Eles parecem vacilantes por estarem interrompendo uma sessão importante do seu chefe, o qual os olha irritado.

Meu guarda até mesmo relaxa a arma, ainda em meu rosto, me permitindo ver Marcelo ainda deitado no chão numa posição antálgica, com o rosto sangrando. O silêncio parece incomodar Silas, que aborrecido exige que justifiquem a inoportuna interrupção. Um deles, que aparenta poucos anos comparado com os demais, gaguejando inicia:

__Perdão, Dr. Silas. Mas um homem surgiu na entrada e exigiu falar com o senhor, dizendo que era muito importante.

__Quem seria tão importante para interromper essa reunião que é minha prioridade absoluta?! __Silas exclama exaltado, fazendo o guarda que falara se encostar contra a parede, em busca de proteção.

__Eu. __Ouço uma voz conhecida anunciar, e eu nem mesmo preciso ver quem é para reconhecer, uma vez que cada célula do meu corpo, principalmente as responsáveis pela minha freqüência cardíaca, se excitam com seu timbre. No entanto, mesmo que eu queira, meus olhos não conseguem se distanciar da porta na qual Dan surge.

Ele ainda veste a mesma camiseta preta e os jeans escuros da noite anterior, e me surpreendo por não fazer nem ao menos vinte e quatro horas desde que havíamos nos separado. Seu olhar não encontra o meu, fixando-se em Silas, e eu me escondo na proteção do abraço do meu carcereiro, o qual permanece atônito diante da imagem de Dan.

__Dan. __Ele completa, embora de alguma maneira, apesar de apenas eu tê-lo visto anteriormente, todos na sala soubemos disso no momento em que o vimos.

__Ora, ora. Que prazer finalmente conhecê-lo, após anos de parceria. __Vejo Silas se levantar, afastando-se da mesa e se dirigindo até Dan, estendendo sua mão. Dan a cumprimenta relutante, permanecendo parado à porta. __Aceita alguma coisa? Quer se sentar? Acho que temos negócios não finalizados. __O olhar de Silas me indica, mas o de Dan não o acompanha, permanecendo fixo nele.

__Eu realmente vim para conversar. __Dan prossegue parecendo desinteressado. __Os seus guardas já me revistaram.

__Que bom. __Silas sorri. __Não queremos brigar, não é?!  A Manuela até estava me contando informações interessantes sobre você, desmistificando a lenda. Quer ouvir?!

__Não, obrigado. __Diz, e eu me escondo ainda mais em meu assento. Mas a vergonha não me parece o sentimento mais adequado para a situação. E o encaro gelidamente, sem conseguir atrair seu olhar. __Mas é sobre ela que vim falar, e aparentemente sobre seu acompanhante. __Finaliza, dando um olhar de desprezo a Marcelo que começa a se levantar, com dificuldade.

__Eu não preciso de porta-voz. __Declaro para Silas.

__Hum... Ela está ferina, agora. Não gostou muito de ser interrompida, Dan.

__Você não vai conseguir nada com ela, Silas. Ela não sabe absolutamente nada sobre isso. O que ela sabe fui eu que contei. Mas eu não contei tudo. Falo o que você quiser em troca da liberdade dela e do garoto. Não só agora, você vai deixá-la em paz, e eu posso trabalhar para você, integralmente.

__Dan, Dan. __Silas sorri se sentando novamente em sua cadeira, parecendo se divertir com o espetáculo que se desenrola em seu escritório. __É uma proposta incrivelmente tentadora, mas infelizmente você não está em posição de negociar. Não pela vida deles. Você já não cumpriu o contrato, já não matou a garota e agora quer que eu a deixe viva?! Impossível.

__Eu devolvo o dinheiro da parte dela. Você só está perdendo o seu tempo. Matá-la agora e torturá-la até contar alguma mentira não vai fazer a mínima diferença. __Redargúi me ferindo com a frieza de sua comercialização.

__Mas ela contava informações interessantes. Não sobre os pais dela, mas sobre você, seus pais. Eu estava gostando.

__E você acreditou? __Encaro Dan, ele esboça um sorriso sarcástico e eu não sei se poderei odiá-lo mais do que nesse momento. __Por que eu diria isso a ela?

__Eu não sei. Pensei que houvesse algum envolvimento amoroso para você tê-la salvado. Pensei que ela estivesse domesticando você.

__Eu não sou domesticável, Silas. Você já deveria saber disso. E eu não misturo trabalho com diversão.

__Está bem, Dan. Mas ela não é nada feia, tem um rosto ingênuo. E por que quer a liberdade dela em troca da sua?!

__Cansei de vida livre, quero dinheiro certo mensalmente, e vou continuar com meus negócios externos, contanto que nunca se oponham aos seus interesses. Além disso, espero que minha reputação com meus clientes não seja abalada por não ter concluído esse trabalho.

__Mas ela sabe muito, Dan.

__Não sabe nada.

__E o que você sabe?!

__O outro cofre. Eu o abri. Eu sei para quem e o que o Agenor Gonçalves estava entregando.

O olhar de Silas se aguça de entusiasmo, o qual ele tenta em vão disfarçar. Dan está conseguindo o que quer que ele queira, embora seus motivos permaneçam um mistério para mim.

__Ele está mentindo. __Ouço-me dizer, surpresa com minhas próprias palavras e minha falsa segurança ao dizê-las, fazendo Silas me observar espantado. __Ele não conseguiu abrir o cofre.

__Acho que ela não quer ser liberta, Dan. __Silas continua sorrindo, mas percebo seu olhar em dúvida, avaliando a minha expressão e a de Dan, tentando ver quem diz a verdade, no entanto, nem eu mesma sei. __ Eu não posso libertá-la antes de ver essas informações.

__Silas, eu não posso mostrar nada sem antes você libertá-la e me prometer não mais procurá-la. Além disso, se você não aceitar a troca eu divulgarei as informações para a polícia e a mídia. E tem muita coisa lá que aposto que você quer manter em segredo.

__Dan... __Vejo Silas se levantar de sua poltrona totalmente desprovido da autoconfiança que ele mantivera por todo o tempo. Suas mãos se contraem em irritação ao segurarem a borda da mesa. __Por que você já não fez isso?

__Você é um dos meus maiores clientes, não quero perder a nossa parceria, e não quero mexer na ordem natural das coisas. A não ser que você me force a isso.

Silas parece em dúvida ao me avaliar. Sinto a mão vacilante de Marcelo no meu ombro, eu a seguro e o vejo se sentar na poltrona ao meu lado com o rosto manchado de sangue e lágrimas, sorrindo para mim, numa tentativa frágil de me passar confiança. No entanto, volto meu olhar para Silas, que parece mais convencido.

__Dan... Como você saberá que ela vai estar em segurança?

__Sempre darei um jeito de saber como ela está.

Um silêncio incômodo domina a sala fazendo um arrepio percorrer meu corpo. Continuo a analisar Dan, contudo ele me ignora completamente, fazendo meu coração se contrair dolorosamente em meu peito.

__Está feito, Dan. __Cede Silas parecendo satisfeito. __Mas se você estiver mentindo para mim, eu não serei tolerante.

__Eu sei. Eu só quero um carro, dinheiro e documentos falsos para eles. E não se preocupe, me certificarei de que não falarão nada sobre isso.

__Estou lhe dando um voto de confiança, Dan.

__Eu agradeço.

E então me vejo sendo levantada por Orlando que retira a arma do meu rosto, ao mesmo tempo em que Marcelo, cambaleante, sorri para mim, parecendo aliviado, como se fosse impossível estar mais feliz. Eu tento sorrir de volta, mas não consigo. Dou um último olhar a Silas, que já me ignora, olhando interessado para Dan que se aproxima da poltrona na qual eu ficara.

Por um segundo, encontro o olhar de Dan, e tenho a sensação de que nunca mais o encontrarei. E ao contrário do alívio que deveria sentir, uma terrível dor invade o meu coração, e sinto meus olhos se encherem de lágrimas de apelo e aflição, embora eu me esforce sem sucesso em manter meu rosto impassível.

Seu olhar é frio e seguro. Todavia, talvez seja a minha visão anuviada pela dor e pelas lágrimas, mas acredito ver o mínimo de emoção em seus olhos, só não consigo definir se raiva ou amargor. E então, sinto Marcelo, recuperado parcialmente de suas forças, me puxar carinhosamente para a porta, e é apenas ele que me impede de gritar que eu amo Dan, e que o odeio por ter feito tal sentimento crescer como um câncer em mim.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Capitulo 18 - Preço


O silêncio do carro não me incomoda. Posso ouvir apenas os batimentos cardíacos de Marcelo contra minha cabeça, ora acelerados, ora diminuídos quando aperto sua mão na minha e a beijo. Olhando pela janela, contemplo as árvores passando em alta velocidade enquanto se contorcem pelo vento da manhã que se torna cada vez mais cinzenta. Seus galhos se debatem contra a ventania, como se me dessem desengonçados acenos de adeus.

Os homens permanecem em silêncio, e eu mal posso ouvir suas respirações. Talvez eles sejam como Dan, treinados para serem invisíveis, ninguém podendo vê-los nem ouvi-los. Eu apenas ouvira a voz do homem que agora está sentado ao meu lado, parecendo concentrado na paisagem. Fora ele que, apontando uma arma assim como os demais para mim e para Marcelo, nos ordenara a não fazer qualquer movimento impensado e ir calmamente para o banco traseiro do carro, se quiséssemos permanecer vivos, o que acho, que de qualquer maneira, não irá acontecer, não por muito tempo.

E nós obedecemos. Eu percebi a aflição de Marcelo, seu olhar procurando uma saída, e seu desespero ao não encontrá-la. Ele viu que tudo era muito mais complicado do que pensara, e eu me recriminei por ter sido ingênua ao acreditar que tão facilmente tudo se resolveria. Marcelo viera da sua vida tranqüila para um pesadelo, era justificado que pensasse que havia uma solução e explicação para tudo, mas eu já o vivia há muito tempo, deveria ter previsto que tudo iria piorar a partir do momento em que eu começasse a envolver a felicidade e segurança de outras pessoas.

O arrependimento por ter envolvido Marcelo nesse pesadelo me é terrível, fazendo me sentir a pior das pessoas quando o vejo tentar me acalmar, mesmo eu sendo a única culpada por tudo. Se não fosse por minha infantilidade, meu sofrimento bobo pela rejeição de Dan, Marcelo estaria aproveitando a manhã de Natal com seus pais e amigos, e não num carro desconhecido indo em direção à sua morte. Porque não há a mínima possibilidade de fuga, não com as armas apontadas para nós, enquanto percorremos um caminho para lugar nenhum. Talvez eles nem nos façam perguntas, uma vez que permanecem em silêncio em seus assentos, apenas indo a algum local em que nos executar seja mais fácil.

Eu havia prometido libertar Marcelo para recomeçar sua vida, sem contaminá-lo com a podridão que germina ao meu redor e por um impulso estúpido havia quebrado todas as minhas promessas feitas a mim mesma. Talvez a convivência com Dan houvesse me assemelhado a ele. Egoísta, não se importando com o efeito de seus atos nas outras pessoas inocentes. E agora Marcelo tenta me manter calma enquanto eu estou o encaminhando para seu fim. Enquanto eu mereço tudo o que está acontecendo.

Dessa vez Dan não me libertará, e nem quero que isso aconteça. Sou incapaz de olhar para ele novamente, e só pensar nisso já me traz imagens perturbadoras. Marcelo percebe minha inquietação e me aperta em seu abraço, beijando meus cabelos, mas se assusta quando me afasto e volto à minha posição inicial.

O homem ao meu lado volta à sua posição de alerta embora seu rosto permaneça impassível enquanto ouve minha proposta:

__Eu faço o que vocês quiserem. São a mim que vocês querem. O Marcelo não tem nada a ver, deixem ele ir, por favor. Eu imploro. __Encontro o olhar de Marcelo que parece não entender o que estou fazendo, apenas me fazendo me sentir pior. Preferia que ele me odiasse, que nunca tivesse acreditado numa conversa insana ao telefone, apenas mantendo a memória da antiga Manuela que nunca lhe faria mal algum. Eu tento consertar o que já está quebrado e fadado a ser destruído, cansei de pessoas inocentes pagarem pelos atos de outras pessoas. Ele me sussurra para que eu pare, que não vai me deixar. Todavia me prendo à esperança, procurando alguma maneira de salvar Marcelo do olho do furacão no qual eu o jogara.  Entretanto nem adianta discutir, uma vez que o homem ao meu lado recusa, num sorriso que não alcança seus olhos:

__Sinto muito, garota. Ele já sabe bastante e não sabemos até que ponto está envolvido.

__Ele não sabe de nada! __Continuo afastando-me dos braços de Marcelo que tenta me segurar para que eu pare. __Eu que o envolvi nisso, mas vocês não ganharão nada com ele. Se o libertarem, ele não dirá nada, nós damos nossas palavras.

__Nós já somos muito grandinhos para acreditarmos na palavra de alguém, muito menos de dois jovens. __Prossegue o homem ao meu lado, novamente admirando a paisagem, enquanto saímos da estrada para uma trilha de areia em meio à vegetação, cujo início é praticamente invisível para qualquer pessoa que esteja percorrendo a estrada.

__Por favor, acredite! __Imploro mais uma vez ao ver que nos aproximamos do lugar do qual provavelmente nunca sairemos. No entanto, meu apelo é recebido apenas pelo silêncio e não faço mais resistência ao abraço de Marcelo.

__Manu... __Murmura ao meu ouvido, me surpreendendo com seu tom calmo, embora eu perceba seus olhar inseguro.__Tudo bem. Eu nunca vou me separar de você. Muito menos nessa situação. Eles perceberão que não sabemos de nada e nos libertarão. E se eu disser que meus pais são ricos e influentes, pedirão resgate e seremos livres novamente. Não se preocupe, você não está mais sozinha. Tudo vai se resolver.

__Você não entende, Marcelo. __Choramingo, tentando sem sucesso não assustá-lo. __Eles não querem dinheiro, pois já têm de sobra. E não há volta. Nós nunca sairemos daqui. Não vivos. Não se não dermos o que eles querem, e eu não sei e muito menos tenho isso.

__E aquele homem de que você falou?... D... __Interrompo-o colocando minha mão em sua boca.

__Shh...Ele não virá. __Sussurro, mas alto o suficiente para que eles ouçam. __Eu fugi. Ontem à noite. Somos só nós dois e deveria ser apenas eu. Eu realmente sinto muito.

__Não, Manu. Você não fez mal em me ligar. Nunca se arrependa disso. Não por minha causa. Foi a melhor coisa que já fez por mim, além de existir. Mas elas estão associadas, no fim das contas. E você não pode assumir toda a responsabilidade por eu estar aqui. Eu poderia não ter acreditado em você ou não ter vindo, embora essa segunda possibilidade me pareça impossível. Acho que posso assumir um pouco da culpa também, não?

__Não, Marcelo... Você não faz idéia. Você não merece nada disso, nada do que eu tenho certeza de que vai acontecer.

__Nem você, Manu. Você não merece nada disso.

__Eu não tenho tanta certeza. Eu não sou a mesma Manuela que você amou, senão eu nunca teria o envolvido nesse pesadelo.

__Se você quer me dar alguma recompensa ou reconforto por eu estar aqui. Eu quero que você saiba disso. Você não merece nada do que está acontecendo e do que aconteceu. Você é a melhor pessoa que eu conheço. __E então ele me beija demoradamente, não como pólvora e fogo numa grande explosão, mais como mergulhar no azul calmo do seu olhar amoroso.

Ainda no abraço de Marcelo, sabendo que não há esperanças, mas feliz por ele estar aqui comigo, me esforço para não entrar em pânico. Não há nada melhor do que não estar sozinha no seu momento final, ainda mais se é alguém que você ama, e é recíproco. Se eu não tivera a sorte de estar com meus pais na minha morte, por eles terem se adiantado a mim, eu terei o amor de Marcelo. Não posso me perdoar por tê-lo trazido comigo, mas é bom ver que ainda lhe restam esperanças. Eu tentara alertá-lo, mas ele parece decidido e seguro, no entanto sei que tudo mudará quando perceber a real dimensão de tudo.

Na escuridão da floresta densa, a qual a estrada atravessa infindável, as noções de tempo e espaço se perdem. Eu me pergunto o que eles pretendem e porque não nos executam logo, abandonando nossos corpos no bosque. Posso até mesmo imaginar o descaso da polícia, afirmando que havíamos sido roubados ou até atacados por animais selvagens, que não devem ser difíceis de encontrar na profundidade em que já adentramos a mata cerrada. Contudo meus pensamentos são interrompidos quando a floresta se abre subitamente numa espécie de clareira ampla e descampada, rodeada pelas árvores.

Ninguém poderia imaginar que no meio de uma mata fechada pudesse existir uma casa desse porte. Nem mesmo as casas mais luxuosas da minha antiga cidade se assemelham. Mesmo com seus dois andares, a casa se mantém protegida pelas árvores altas que a cercam. Ela é quase bonita no seu tom claro e sua estrutura em alvenaria, com suas amplas portas e janelas de vidro, além de uma larga piscina em sua área externa, dando um frescor inesperado a uma casa que deve ser tão sombria.

Se não fosse a localização inusitada e o número de carros importados espalhados pela área externa gramada, ela poderia ser tida como uma bela e grandiosa mansão. A natureza ao redor lhe dá uma beleza especial, a qual eu poderia admirar se fossem outras as circunstâncias.

Marcelo me abraça mais forte quando o carro pára à frente da casa. Percebo alguns homens fazendo a ronda, e pelo número de carros deve haver muito mais no seu interior. Nós não temos a menor chance. Nem mesmo se Dan aparecesse, apesar disso ser impossível, conseguiria nos salvar.

Não faço resistência quando nos forçam a sair do carro. Assim como eu, Marcelo parece resignado enquanto nos encaminhamos à porta, com seu braço protetor rodeando minha cintura. Admirando o céu, talvez num último pedido de perdão, vejo a manhã se fechar sobre nós, com suas nuvens cinzentas cobrindo o céu, como se dissesse que estamos à nossa própria sorte, e antes que eu seja levada ao meu suplício, peço apenas para mim mesma que pelo menos seja breve.

            A sala ampla, na qual entramos após nossos captores terem sido autorizados pelos guardas que vigiavam a entrada, é iluminada artificialmente por belos lustres de cristais, uma vez que pelas largas janelas de vidro entra apenas a luz cinzenta da manhã.

            Ela parece um acampamento de guerra, o que talvez realmente seja, havendo inúmeros assentos e diferentes modos de entretenimento para seus ocupantes. Alguns homens jogam cartas despreocupados como se estivessem entre amigos, o que talvez seja verdade. Outros assistem a um jogo de futebol na televisão, alguns sorrindo e dando gritos exaltados enquanto outros murmuram enraivecidos. Seria uma cena familiar de amigos ou colegas de trabalho, se não fossem suas armas destacadas em seus coldres.  E eu me surpreendo por eles demonstrarem algum sentimento humano apesar de mal repararem na minha entrada com Marcelo, ambos assustados por sabermos, assim como eles sabem, o que nos espera.

            Eu tento imaginar, sem sucesso, meu pai em meio aos homens que pouco se importam com nosso destino, e me pergunto se algum dia ele já presenciara e fora indiferente a uma execução.

Procurando sem êxito algum sinal de piedade, ou até mesmo empatia, nos rostos desconhecidos, sou conduzida a uma escada no fim da sala, atrás da qual vejo um corredor com inúmeras portas, as quais devem pertencer aos dormitórios de todos esses homens. Estamos numa fortaleza, no verdadeiro centro de operações dessa quadrilha, ou seja lá o que for tudo isso. E por mais que eu me esforce, nada do que me é apresentado faz o mínimo sentido em estar relacionado a meus pais

            Avaliando meus algozes enquanto nos encaminham num largo corredor coberto por um tapete rico e ornamentado com consoles e estátuas imponentes, me pergunto o quanto são fiéis ao seu chefe, ou se temem afrontá-lo tendo suas famílias e vidas destruídas como a minha. No entanto, antes que possa lamentá-los, sinto um arrepio percorrer meu corpo quando paramos em frente a uma porta, cujo vigia autoriza nossa entrada.

Eu me surpreendo ao entrarmos numa sala aparentemente normal, diferente da que eu fora torturada anteriormente. Parece um escritório luxuoso, com seus papéis de parede no mesmo tom claro do resto da casa, assim como tapetes e cortinas bordadas em tons de dourado e marrom. Há diversos itens decorativos como os que se espalham pelo corredor, assim como quadros e obras de arte. No entanto, a cena é roubada por um lustre ainda mais bonito que os expostos na sala no andar inferior, com todos seus cristais em formas de lágrimas e suas correntes douradas.

As três poltronas de couro distribuídas ao redor da imponente mesa de madeira escura esculpida dão um tom de formalidade à sala que poderia ser confundida com uma sala de decoração. Mas nada disso afasta meu olhar do principal atrativo da sala, alguém que eu sinto que sempre pairara como uma sombra em minha vida, mas que apenas há alguns dias se tornara real para mim.

            Um homem aparentando seus sessenta anos ocupa a cadeira atrás da mesa. Ele emana um ar intelectual e simples, tão diferente de Carvalho, apesar de parecer muito mais rico e poderoso, pelo olhar de respeito e quase medo com que os homens que nos escoltam o olham, assim como por sua autoconfiança desafiadora ao sorrir para mim e para Marcelo.

            O seu sorriso não é assustador. Eu poderia considerá-lo quase simpático se a situação não me apavorasse tanto. Ele se levanta para nos cumprimentar com um aperto de mão, antes de pedir que nos sentemos nas cadeiras à sua frente. Sua mão está fria e não transparece qualquer alteração de humor, assim como seu olhar calmo.

            Nem há motivos para tanto. Ele está no controle da situação, e suas feições demonstram que já está acostumado a isso. Sua segurança e calma quase conseguem me relaxar, contudo estremeço quando ainda sorrindo se apresenta como Silas.

            Silas percebe meu olhar aguçado e sorri placidamente, achando divertido que eu já conheça seu nome.

            __Seria impossível não saber o nome do assassino dos meus pais. __Replico irritada. Minhas mãos e meus lábios tremem, e é com dificuldade que encaro seu olhar escuro, contudo me esforço para demonstrar o máximo de indiferença. Eu não tenho absolutamente nada a perder. Eu poderia ser mais passiva na tentativa de salvar a vida de Marcelo que permanece em silêncio, quase assustado em sua poltrona, entretanto eu já tentara no caminho, sem resultado. Agora é impossível salvar qualquer um.

            Devo isso em memória a meus pais, não os envergonharei como tenho feito nesses tempos, como uma covarde. Enfrentarei seu maior inimigo e que se danem as conseqüências.

            __Na verdade, nem eu sei o nome do assassino do Agenor e da Noemi. Acho que ninguém sabe, mas todos o chamamos de Dan. Na verdade eu nem sei como ele é. Nunca tive a oportunidade. Poucos sobrevivem após terem visto seu rosto. Você é uma das poucas. Contudo me parece que você ficou íntima dele nesses últimos dias. Descobriu seu nome?

            __Não. Eu não sei. Não é disso que eu estou falando. Foi você que o pagou para matá-los. Eu só não entendo o porquê.

            __Oh, Manuela... Ainda há muitas coisas que você não entende. Acredita que com os meus sessenta e dois anos, ainda há coisas que eu não entendo? __Confessa sorrindo, como um avô zombando da ingenuidade do neto. __Não por nós não sermos inteligentes. Na verdade, o Agenor sempre me falou da sua inteligência quando conversávamos sobre sua família. Nesse mesmo escritório. Engraçado, ele sempre escolhia essa cadeira, embora seja visível que a outra é mais confortável. Nunca entendi o porquê disso.

            __Como você pode falar dele assim?! __Exclamo chorosa, com a antiga Manuela começando a vencer minhas defesas.

            __Assim como, criança? __Pergunta curioso, quase paternalmente.

            __Como... Como se gostasse dele?! __Ouço-me choramingar para minha vergonha.

            __Mas eu gosto. Ou gostava. Não sei se ele está vivo ou morto, na verdade. __Continua com uma falsa empatia, fazendo meus ossos enregelarem.

            __Eles morreram! __Exclamo num lamento, sentindo como se após tudo o que sofreram, meus pais não pudessem ter o mínimo de paz.

            __Como eu ia dizendo... __Silas continua me ignorando, ao mesmo tempo em que sinto a mão trêmula de Marcelo segurar a minha, tentando me acalmar. Eu encontro seus olhos assustados, e o pânico presente neles enche meu coração de dor. Ele finalmente percebe a gravidade da situação, mas não posso ajudá-lo. Desde que soube da morte dos meus pais esperei por esse momento e agora não posso desperdiçá-lo.

            Repouso minha mão sobre a sua, sorrindo para ele que tudo ficará bem. Por um momento, Marcelo parece acreditar e se tranqüilizar. É como consolar uma criança assustada. Seus olhos claros fixos em mim brilham com os reflexos das lágrimas que o vejo se esforçar para reprimir. E seu corpo perfeito, que fazia todas as garotas do colégio suspirarem, principalmente eu mesma, agora se encolhe na proteção da cadeira.

            Eu me arrependo ainda mais por tê-lo trazido para meu mundo terrível, e beijo sua mão antes que ele a leve de volta para a proteção de seu assento. Silas continua seu discurso nostálgico, falando mais para si mesmo, quase emocionado:

            “Quando você nasceu, há dezessete anos, ele me disse que queria morar fora do país com sua mãe e a criança que nasceria, mas eu o impedi. Ele não podia me abandonar, logo que os negócios estavam melhorando. E eu o pouparia da parte braçal, precisando apenas me ajudar a coordenar nossas ações, o que seria mais seguro para a sua família, que eu considerava como minha. Ele até me deu uma foto sua, por insistência minha, e quase anualmente trazia outras, apenas me deixando mais orgulhoso.

Você realmente ficou muito bonita, Manuela, não me admiro por Dan ter se encantado tanto por você, embora não haja justificativa para o que ele fez. Mas isso é outra conversa.

Mesmo assim, seu pai continuou a trabalhar para mim normalmente. Eu confiei nele. Nós estávamos no auge, seu pai como meu braço direito, meu aprendiz, conselheiro e amigo, quase um filho. Dei o comando de várias das minhas unidades, querendo que andasse com seus próprios passos, mas ele quis me abandonar. Como ele poderia me abandonar depois de tudo o que fizera por ele? Era como se tivéssemos um pacto de sangue. Um não existia sem o outro, principalmente ele não existiria sem mim.

Agenor disse que estava cansado dessa vida. Eu perguntei “Que vida?” e “Que vida você conhece além dessa?”. Não me deu ouvidos, por mais que eu tentasse dissuadi-lo. Insistiu e eu disse que só nos separaríamos na morte de um dos dois, e seria mais fácil a dele. Não foi nem ao menos uma ameaça, foi um comentário, uma observação.

Mas ele se apavorou. E fez o que nunca deveria ter feito. Não comigo, seu sócio e patrão, seu melhor e único amigo. Ele quis me trair. Nós vivemos numa corda bamba. Não é fácil se manter no poder, e eu devo tudo isso a lealdade dos meus serviçais.

Todos querem um pedaço do meu império, e só conseguirão isso descobrindo os segredos do meu sucesso. E quem os sabia mais do que seu pai? No qual eu sempre confiara cegamente? Então chegaram os boatos de que ele aceitara proteção dos meus inimigos em troca de dedurar meus planos e ações. Eu me recusava a acreditar, mas os boatos se tornaram fatos. Seu pai achou que eu não descobriria nem me vingaria. Quanta ingenuidade. Eu jamais queria ter sido forçado a fazer isso.

E uma forma também de me manter no poder infelizmente é o medo. Outros serviçais poderiam estar com as mesmas intenções, de me abandonar ou mesmo de me trair. Nenhum que fizesse isso seria um golpe tão grande como foi seu pai, no entanto eu preciso mostrar a todos o que acontece com quem trai minha confiança.

Por isso toda a sua família pagou. Só nunca pensei que seria tão difícil. Eu contratei executores, dentre eles o melhor, Dan. Entretanto, ele me pregou uma peça que também lhe custará caro. Eu até gosto de brincadeiras. Eu sempre lhe enviava presentes pelo seu pai, só não sei se ele chegou a lhe entregar algum deles. Lembro de umas estrelas fosforescentes, na época elas eram difíceis de encontrar e seu pai me falou que você adorava olhar o céu. Só não gosto de brincadeiras misturadas com trabalho...

Agora, por exemplo, eu quero que você me diga onde estão seus pais e por que você sobreviveu e não estou brincando.”

__Se você gostava tanto do meu pai, como pôde fazer isso com ele?! Você é um louco tirano! Ele devia confiar em você para ter trabalhado sob seu comando! Quem é você para achar que manda no universo? Você não é ninguém! __Exclamo me afastando do braço de Marcelo que tenta me segurar, levantando-me da minha cadeira para enfrentar Silas.  __Um dia que eu espero que chegue em breve você morrerá, assim como eles. E de que terá adiantado tudo isso?! Todo esse seu império de não sei o quê construído em meio ao terror, a partir de sonhos e vidas destruídos. Você será um simples mortal como todos os outros, com a desvantagem de que todos apenas se alegrarão e respirarão aliviados sobre o seu leito de morte. A mesma família que você considerava como sua está agora destruída, e o que você conseguiu com isso? Você só consegue gerar sentimentos ruins em todas as pessoas. Medo na maioria. Mas, no meu caso, eu tenho nojo de você.

Os três homens que haviam nos transportado de carro permanecem na sala e vêm furiosos para cima de mim ao ouvir minhas palavras, no entanto, com uma gargalhada calorosa e um aceno de Silas, eles voltam aos seus lugares.

__Assim como você despreza os sentimentos mais nobres das pessoas de bem, eu desprezo pessoas como você. __Continuo ignorando sua expressão divertida, apenas considerando cômico meu ataque furioso. __ E quando você morrer pagará por tudo o que fez de mal para todas essas pessoas presas pelo terror.

__Você acredita em Deus, pequena? É surpreendente que você tenha fé depois de tudo o que lhe aconteceu. Ou talvez você estar viva aqui na minha frente, após eu ter pago no mínimo cinco executores para matá-la, seja realmente um milagre. Poderíamos até brindar a isso, se eu acreditasse em milagres. Quem se importa se há céu ou inferno? E se houver, você acha mesmo que seus pais estão no céu? Você acha que eles são melhores que eu? Eu não sei a sua mãe, ela era uma prostituta assim como Maria Madalena, deve ter ido para o céu. Agora o seu pai...Tsc..tsc...Acho que não.

__Não fale assim dos meus pais! __Vocifero apontando meu dedo furiosamente contra seu rosto. Silas o olha admirado, quase como se o tivesse contemplando.

__Você acha mesmo que os conhece melhor do que eu? Fui eu quem apresentou sua mãe ao seu pai, após ter me cansado dela, se é que você me entende. E seu pai não seria nada sem mim. Você viveu a sua vida toda como uma princesa, numa mansão, com piscina, viagens, melhores escolas, melhores roupas, festas. Tudo o que você quisesse era só pedir. Nunca se perguntou se realmente merecia tudo isso? Você se achava melhor que os outros, com mais sorte? Pois eu lhe respondo. Você não merecia nada disso, nem ao menos sofreu para consegui-lo. E nada vem de graça. Talvez agora você esteja pagando seu preço. Mas não se preocupe, hoje vai ser a última prestação.

E eu volto a me sentar trêmula quando um dos homens pressiona uma arma contra minha cabeça me pedindo que eu facilite as coisas, pois ainda quer ver o final do jogo.

Eu aceno a cabeça em confirmação. E não me importo de estar mentindo. Afinal, é a última mentira da minha vida.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Capítulo 17 - Encontro


Tamborilando meus dedos na mesa dobrável de madeira, me desculpo com a garçonete que me pergunta pela terceira vez se já farei o meu pedido. Aproveito e pergunto o horário, também pela terceira vez. Ainda não são oito horas da manhã, e faz apenas três horas que falei com Marcelo.

Protegida na sombra do guarda-sol adaptado à mesa, na parte externa da lanchonete, separada da rua por um cercado de madeira, admiro a praça principal da cidade à minha frente. A lanchonete está quase deserta, colorida com as decorações de Natal que brilham com a luz do sol. As portas da igreja se abrem para a praça, e o sino começa a tocar, anunciando o início da missa natalina. Os primeiros fiéis entram, idosos, crianças, adultos, homens e mulheres, todos irradiando felicidade.

Decido-me por chamar a garçonete, que parece entediada quando se aproxima novamente da minha mesa, talvez por pensar que eu vá apenas perguntar as horas, ou por estar usando um chapéu de papai Noel, no qual não parece confortável. Eu peço um café com leite, entregando o restante do dinheiro como pagamento. Agora me restam apenas um cartão telefônico com cinco unidades, a roupa do corpo e a esperança de que Marcelo apareça.

Sorrio para as crianças que passam correndo, mostrando aos amigos seus variados presentes. Há pouco tempo eu era um deles, me preocupando apenas com que presente eu ganharia dos meus pais. Eu os invejo por sua inocência, e pela simplicidade de suas vidas, ausência de preocupações e qualquer responsabilidade, exceto a de ser feliz.

As ruas estão calmas, e as pessoas que saem de suas casas, vão caminhando para a igreja, enfeitiçadas pela magia do Natal. Agradeço a garçonete que entrega meu pedido, e lhe desejo um feliz natal, quando ela faz o mesmo.

O café com leite aquece meu corpo, mas o sinto estremecer, de uma forma boa, quando vejo o carro de Marcelo estacionar em frente à lanchonete. Meu coração bate desesperado contra as paredes do meu peito, como se quisesse se libertar e correr até ele.

Tento me conter, mas a antiga Manuela me proíbe de ser rígida comigo mesmo, e me permito chorar, quando me levanto e atravesso a calçada até ele. Marcelo sai do carro, ainda usando seu terno abarrotado, por ter saído do seu jantar de natal diretamente para a estrada, e mal posso descrever sua expressão.

Ele sorri tais quais as crianças que corriam com seus brinquedos, num misto de êxtase e incredulidade. Vejo as lágrimas em seus olhos, e compreendo que não há motivos para não extravasá-las quando se é por uma extrema felicidade. Seu corpo se choca contra o meu em desespero quando ele me abraça e me beija.

Eu me entrego aos seus beijos, e o abraço maravilhada, sorrindo quando o vejo se distanciar para encarar meu rosto, verificando se sou realmente eu, e se esse momento é real. E então choro quando Marcelo me abraça novamente, e sinto suas lágrimas molharem meu rosto, confundindo-se com as minhas.

As pessoas sorriem e observam curiosas nosso encontro emocionado, mas não me importo. Ainda no abraço de Marcelo, enquanto o conduzo para nossa mesa, a imagem de Dan vem à minha mente, mas eu a ignoro. Ele não merece interromper meu momento de felicidade.

Marcelo se senta à minha frente estupefato com um sorriso bobo fixo no rosto.

__Não é estranho que seja tão difícil de acreditar que tudo o que eu pedi nesses últimos dias seja verdade e esteja agora diante dos meus olhos? Manu... Manu... __Sussurra me beijando novamente entrelaçando suas mãos nas minhas. __Manu... Eu não quero acordar. Esse é o melhor sonho que eu já tive.

__Não é um sonho, é a verdade. __Sorrio admirando seus olhos brilhantes pelo reflexo de suas lágrimas, e o beijando novamente. Repreendo-me por olhá-lo e não achá-lo tão maravilhoso como antigamente. Talvez eu não possa mais amá-lo de uma forma sonhadora, encantada por sua beleza angelical e seu porte atlético, mas sim racionalmente, pela pessoa bondosa e amorosa que ele é e sempre foi comigo. Beijo-o novamente, e seu toque me acalma, embora os flashbacks do toque e dos beijos de Dan invadam minha mente, me perturbando.

__Meu Deus, Manu. O que houve? Eu não acreditei quando ainda naquela madrugada se espalhou a notícia de que havia um incêndio na sua casa. Quando cheguei os bombeiros já estavam tentando extingui-lo, apenas para impedir que se propagasse para a vizinhança, porque não havia sobreviventes. Eu não acreditei. __Eu o ouço narrar emocionado, com seu olhar desfocado, como se presenciasse novamente aquela noite terrível não apenas para ele. __Você não poderia ter morrido. Não poderia ter me deixado. Meus pais haviam ido comigo e me consolaram. Ah, Manu. Mas isso não importa. Você está aqui comigo de novo, não faço idéia de que maneira, mas sou grato. __Conclui abraçando-me novamente.

__Tudo bem. __Respondo me aconchegando em seu abraço protetor, agradecendo por poder ser apenas uma menina assustada em seus braços, não precisando impressioná-lo nem construir uma barreira ao redor do meu coração, para impedi-lo de entrar.__É bom ouvir sua voz.

__Ah, Manu. Eu não sei se mereço tudo isso. Poder abraçar e beijar você depois de tudo o que aconteceu. Meu Deus. É bom demais para ser verdade.

Ele me beija novamente e eu retribuo, agradecendo a calma que ele me passa, embora as lembranças de Dan ainda não tenham me abandonado, e percebo que por mais que eu mantenha meu coração aberto para Marcelo, Dan não o deixa entrar.  Somos interrompidos pela garçonete que parece tímida ao nos oferecer o cardápio o qual eu recusara antes. Marcelo ainda me abraçando o aceita e olha para mim preocupado.

__Meu Deus. Você já comeu alguma coisa hoje? É melhor pedirmos alguma coisa.

__Um sanduíche integral e um suco de maracujá.

__O mesmo para mim. __Marcelo pede ainda me contemplando. __E seus pais? Onde eles estão?

__Eles... Eles realmente morreram.

__Eu sinto muito, Manu.__Lamenta me abraçando apertado contra seu corpo, beijando meu rosto com doçura, e afagando meus cabelos. __É tudo tão absurdo para mim. Como isso aconteceu? Só você sobreviveu? E onde você esteve esse tempo todo? Por que deixou que todos pensassem que estava morta? E aquele corpo que eu vi?

__É uma história complicada, Marcelo. E ela parece confusa até para mim.

__Sou todo ouvidos. A não ser que você não queira falar sobre isso.

__Tudo bem... __Inicio tentando dar uma seqüência lógica aos fatos. __ Você se lembra daquele homem que morreu na minha festa de aniversário?

__Sim. Como poderia esquecer o dia em que começamos a namorar? __Sorri beijando minhas mãos.

__Ele era um executor.

__Executor? __Pergunta olhando-me preocupado. __ É o que eu acho que significa?

__Um matador de aluguel. __Sussurro, embora a essa hora a lanchonete esteja praticamente deserta. __Ele era um dos executores que pretendiam me matar, mas um deles, o homem com o qual eu conversava no bar naquele dia, me defendeu o matando. Eu não disse nada porque não estava certa quanto ao que acontecera, e estava assustada. Mas foi esse mesmo homem que incendiou minha casa, matando meus pais. Entretanto ele me salvou por não tê-lo entregue à polícia na minha festa, e colocou outro corpo no meu lugar, para todos pensarem que eu estava morta.

__Como assim? Você tem certeza do que está falando, Manu? __Marcelo me pergunta preocupado, com um ar de dúvida nos seus olhos fixos nos meus.

__Infelizmente sim. É uma loucura. Meus pais estavam fazendo alguns negócios ilegais e acabaram caindo na própria armadilha. E eu caí junto. Essas pessoas para quem meu pai trabalhava quiseram se vingar por ele estar querendo deixá-los, e conseguiram.

__Seus pais? É difícil de acreditar que eles tenham se metido nesse tipo de coisa. Mas essas pessoas, para quem seus pais trabalhavam, sabem que você sobreviveu?

__Sim. Graças à minha própria infantilidade. Esse homem que me salvou, o Dan...__Falar seu nome faz um calafrio percorrer meu corpo, como se o tivesse chamando. __Eu não acreditei nele. Achei que estava me seqüestrando, pois me manteve presa numa casa por algum tempo, e então eu fugi para procurar a polícia.

__E fez muito bem.

__Não. Eu acabei sendo pega por alguns dos subordinados do mandante da morte dos meus pais. E o Dan me salvou...

__Onde ele está agora?

__Deve estar na casa onde estamos morando.

__E por que você só me procurou agora, Manu? Você não faz idéia do quanto eu sofri esses dias. Nunca parei de pensar em você, num só momento.

__Eu não quis te envolver, Marcelo. Nem agora eu deveria ter feito isso.

__Você está arrependida por ter me ligado? __Marcelo pergunta parecendo chateado.

__Não! Mas agora você está envolvido. Eles nunca me deixarão em paz. Eu não quero que cacem você como estão fazendo comigo nem que o torturem. Quando eu soube que todos imaginavam que eu estava morta, decidi deixá-lo livre. Para continuar sua vida normal. E agora estou sendo egoísta trazendo você para o caos que é a minha vida.

__Como assim me deixar livre, Manu?! Minha vida que estava um caos sem você. Eu sou seu namorado. Tudo que te faça mal também me faz mal. Eu estou com você em todas as horas, as boas e ruins. Você não deveria ter demorado tanto para me ligar. Mas vamos recuperar o tempo perdido. Você vem comigo?

__Para onde, Marcelo?! Eles me encontrarão onde quer que eu esteja.

__Nós vamos à polícia, e meu pai é advogado, Manu. Ele vai nos ajudar. Vai ficar tudo bem, ninguém vai suspeitar de você.

__Suspeitar de mim?! __Exclamo incrédula, contendo meu tom de voz.

__Sim, Manu. Apenas você sobreviveu, mas não se preocupe. __Continua se levantando da cadeira.__É melhor nós irmos, meus pais nem sabem para onde fui.

__Você não entende a magnitude da situação, Marcelo. Eles são terríveis, poderosos. E eu não sei até que ponto a polícia os acoberta. Os homens que me capturaram quando fugi tinham distintivos. E eu não posso te envolver nisso.

__Então qual é a sua idéia, Manu? __Pergunta voltando a se sentar.

__Eu não sei o que fazer. Mas ninguém pode saber que estou viva. __Insisto.

__Manu, me ouve. Nós vamos até a polícia, eles te darão proteção. Há tantas pessoas que amam você. Eu, meus pais que adorarão hospedá-la na nossa casa, as garotas que ficaram apavoradas com a sua morte. Todos protegeremos você. E com tudo o que você disser para a polícia irá ajudá-los a prender os culpados, o assassino dos seus pais e essas pessoas para quem seu pai trabalhava.

__Não, o Dan apenas me protegeu esse tempo todo. __Afirmo tentando convencê-lo, sabendo que mesmo que eu odeie Dan, não posso esquecer tudo o que ele fizera por mim.

__Manu, eu não entendo muito desses assuntos de crimes e assassinatos. Mas esse cara é muito suspeito, não apenas pela morte de seus pais, que nós já sabemos que é o culpado, mas dessa história toda. É claro que ele estava seqüestrando você com alguma intenção obscura, e tentando assustá-la para que confiasse nele.

__Como assim?

__Você não acha muito suspeito que ele tenha salvado você duas vezes sem qualquer motivo plausível aparente? E é muita coincidência que quando você consegue fugir dele, já se depare com dois captores que nem sabiam que você estava viva. O que eles estariam fazendo em outra cidade? Ele deve estar lhe assustando com essas idéias para que você não fuja novamente, e confie nele. Você deve ter um valor maior viva do que morta, só não sabemos para quem.

__Você acha que ele vai me entregar para alguém?

__Sim. __Marcelo prossegue em seu raciocínio que me parece cada vez mais convincente. __Por que ele estaria te salvando por todo esse tempo? Apenas pelo prazer da sua companhia? Uma pessoa desse tipo não saberia dar valor a isso. E por que a polícia não pode saber que você está viva? Para que ninguém possa atrapalhar o trabalho dele. Ele já disse o que planeja fazer com você?

__Antes ele dizia que iria me deixar em algum lugar seguro fora do país, mas agora que eles sabem que estou viva, vai tentar conseguir reforço e está investigando até onde se estende o poderio desses homens.

__Desculpa, Manu. Mas você está se enganando. Como ele pode não saber nada sobre quem o pagou para matar sua família? É melhor nós procurarmos meu pai e a polícia. Você vai poder descansar e esquecer todo esse pesadelo. Está na hora de acordar. __Sorri me beijando, como um príncipe encantado me despertando de um sono que já durava mais tempo do que eu desejava e que me aterrorizara com seus terríveis pesadelos. Sorrio novamente, o abraçando quando nos levantamos, após Marcelo deixar o pagamento sobre a mesa.

Sim. Marcelo me despertou do pior pesadelo que eu já tivera e tudo ficará bem. Eu me espanto por ter sido tão ingênua acreditando que Dan me mantivera viva esse tempo todo apenas em recompensa a um favor que custara a vida dos meus pais, ou até mesmo por nutrir algum sentimento por mim, como eu quisera acreditar. Felizmente, eu finalmente fizera o certo pedindo ajuda a Marcelo. O olhar imparcial de alguém que não passara por minha dor, e muito menos se deixara encantar pela aura misteriosa de Dan, conseguiu responder as perguntas que me perturbaram por todos esses dias.

Eu nem ao menos titubeio em acreditar. Se Dan fora capaz de me ferir como fizera na noite de Natal, nada que Marcelo me diga me será impossível de acreditar. Abraçados nos dirigimos ao carro, e a vida me sorri quando a calma me invade, mas mal posso sentir seu gosto, ao ver um carro escuro estacionar em frente à lanchonete. E eu nem ao menos posso gritar. O pesadelo apenas dera uma pequena pausa, mas agora retorna com todo seu horror.

Marcelo ainda sorri me conduzindo à rua, mal percebendo o que nos espera, enquanto meus olhos aguçados já acostumados a esperar o pior observam três homens à paisana descerem do carro. Eu quase compartilho o sorriso confiante de Marcelo, tentando acreditar que estou apenas paranóica e esses são homens totalmente honestos vindo tomar o primeiro café-da-manhã do Natal.

No entanto, minha ilusão que ainda nem me convencera se dissipa, quando eles nos cercam, fazendo Marcelo ficar tenso no meu abraço, quando visualiza as armas que eles nos apontam, ordenando que entremos no carro sem chamar atenção. Olho para o lado e vejo a garçonete pegar o dinheiro que havíamos deixado na mesa. Ela nos olha despreocupada, como se apenas estivéssemos dando informações a turistas, e nem ao menos parece alarmada, quando entramos no banco traseiro do carro.

Marcelo tenta disfarçar seu pavor, mas posso sentir sua mão úmida apertando a minha. Seu outro braço rodeia minha cintura e me segura apertada contra ele. Seu olhar está perdido através da janela, e seu coração bate acelerado no seu peito, no qual apóio minhas costas.

Eu me ajeito ao seu lado, para encarar seu rosto angelical assustado, fazendo-o sorrir sem graça ao perceber a direção do meu olhar. Ele me beija com seus lábios trêmulos e frios, tentando me manter calma, embora ele mesmo não consiga, e ainda sorrindo sussurra ao meu ouvido.

__Não se preocupe, Manu. Tudo vai ficar bem.

Eu sorrio e o beijo demoradamente de volta, ignorando os três homens que permanecem em silêncio, enquanto nos encaminham para a estrada, na direção oposta da minha cidade natal. E o vejo parecer aliviado, ao imaginar que conseguiu me acalmar, ao dizer que tudo ficará bem. No entanto, dessa vez eu sou esperta o suficiente para não acreditar nele.