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domingo, 19 de agosto de 2012

Capítulo 9 - Dor


Minha mente parece entorpecida. Vejo as árvores passarem rapidamente pela janela do carro, que segue em seu caminho veloz. Essa cena me é estranhamente familiar. O pano que envolve meu pé já adquire uma coloração avermelhada, no entanto, quando o desenrolo para ver meu ferimento, contendo minhas náuseas, ao vê-lo dilacerado, percebo que o sangramento está diminuindo.

            Aperto novamente o pano ao redor do meu pé, tentando estancá-lo. Não que isso me importe realmente, apenas tento não sujar o carro da polícia.

            Os policiais continuam no banco da frente sem conversar, olhando para a estrada adiante. Eu jamais conseguiria chegar à delegacia, uma vez que ela é no caminho oposto do que eu tomara ao fugir do hospital, e parece ser incrivelmente longe.

            Contenho-me de fazer perguntas quando o policial desvia da estrada, entrando numa trilha de areia por entre as árvores, que mal poderia ser vista por qualquer pessoa na estrada. E nem preciso, pois o motorista, se desviando para me olhar, ainda sorrindo, diz:

            __Espero que você não se importe de não ir para a delegacia. Lá nós não teríamos como cuidar de você, e é melhor termos mais privacidade. Além disso, como nós somos investigadores especiais, esse é o nosso centro de operações. __Diz, indicando com a mão, uma casa que parecia escondida em meio às árvores. Eu me sinto aliviada, ao ver que não estou lidando com meros policiais de meia-idade, gordos e carecas, que não seriam nada perto de Dan, e que achariam que eu estava louca se eu contasse a minha história.

            Há outro carro estacionado em frente à casa, igualmente escuro. O carro no qual estou pára ao seu lado, e os dois policiais saem. Eu percebo como estou enfraquecida quando é com esforço que me arrasto pelo banco traseiro até uma das portas. O policial negro, então, abre a porta para mim, deixando-me apoiar em seu ombro, usando apenas meu pé saudável, enquanto me encaminha, para o interior da humilde casa, pelo caminho de terra.

            Há dois outros policiais na entrada da casa. Um deles me encara parecendo entre surpreso e assustado. Imagino o quanto meu aspecto deve estar horrível, enquanto atravesso uma sala deserta, pouco mobiliada para um centro de operações. Mas é com alívio que aceito a cadeira oferecida pelos dois policiais, quando me adentram numa sala pequena, mobiliada com uma mesa e duas cadeiras, e felizmente sem falso-espelho.

            Esforço-me para me manter desperta. Tudo adquire um tom mais escuro, e vejo a sala se mover num ritmo estranho há minha volta. Vejo luzes piscando pela sala, e com dificuldade aceito o copo d’água que me oferecem, ela está doce, mas o policial explica que colocaram um pouco de açúcar. Sinto a avidez com que meu corpo a ingere, e aceito mais dois copos.  

            Eu vejo que ainda preciso de mais água, no entanto, eles não mais me oferecem, esperando que eu comece a falar. E eu falo.

            Não sei se na ordem certa, ou se faz algum sentido, contudo, as palavras jorram da minha boca, assim como as lágrimas que escorrem pelo meu rosto. A minha fuga, os dias como refém, a minha festa de aniversário, o homem morto que planejava me matar, o noticiário com a foto minha e dos meus pais, todo o meu sofrimento encarcerada, o que eu me lembro do incêndio, dos dias desacordada e dopada, das justificativas insensatas de Dan. Tudo. Tudo.

            Eles parecem tolerantes e interessados no que eu digo. O grisalho permanece á porta, todavia, a última coisa que eu farei é fugir. O negro não mais sorri, mas encara condescendente o meu olhar. Ele não faz anotações, mas vejo seus olhos acompanharem cada movimento meu. Até mesmo me oferece uma caixa de lenços de papel, que agradeço, sem aceitar.

            Eu já não sei mais o que dizer, já tendo falado do meu sofrimento, do quanto me revoltava que a polícia tivesse abandonado as investigações, mas que os perdoava, uma vez que sabia o quanto Dan era profissional e frio, sem deixar quaisquer rastros.

            Eles permanecem calados, me observando atentamente. Isso me incomoda, como se eu esteja também sendo investigada, como se suspeitassem de mim. Retomo meu discurso, percebo que estou repetindo tudo o que já disse, e que o fato de estar chorando, ainda confunde mais minhas palavras, porém não posso parar.

            Depois de tudo isso, eles precisam entender. Eu não me importo comigo, apenas preciso que eles entendam que Dan é um perigo, um assassino perigoso e cruel, que precisam prendê-lo. Eu falo isso, mas eles não parecem mais prestar atenção. Continuo falando em vão, tentando chamar-lhes a atenção, enquanto eles conversam entre si pelo olhar.

            Minha cabeça dói, e a sala volta a girar ao meu redor. Ouço-me continuar a falar, mas não sei mais o que digo. Eles precisam entender. Eles precisam entender, é o que me ouço implorar em voz alta.

            O policial negro, que ouvi o policial grisalho chamar de Hugo, me encara, voltando a sorrir. Sinto-me aliviada, embora o sorriso pareça um tanto irônico. Ele diz, se dirigindo a Augusto, que voltara a rondar a porta:

            __Eu acho que ela está mentindo. O que você acha, Augusto?!

            Meu coração se aperta em meu peito. O que está acontecendo?!

            __Talvez. __Augusto responde me analisando com sua expressão fria e enraivecida.

            __Não... __Começo a dizer numa voz cansada. A sala adquire uma forma cada vez mais confusa, se assemelhando a um caleidoscópio, com suas luzes que continuam a piscar. E eu não consigo imaginar porque eles parecem estar chateados comigo. __Não. Eu... Eu... Não estou mentindo. __Até mesmo minha voz me parece distante, como de outra pessoa, num tom grave e enrolado.

            __Acho que está. __Continua Hugo, ainda sorrindo, com seus olhos quase ferozes me avaliando.

            __Não. __Volto a chorar, e o desespero me invade. Eles não acreditam em mim! O que está acontecendo?! Eu estou dizendo a verdade!

            __Então onde estão seus pais?! __Pergunta Augusto, numa proximidade assustadora, parecendo estar perdendo a paciência.

            __Eles... Estão mortos... Dan...

            __E por que você está viva?!__Continua Hugo, tentando manter a calma.

            __Eu não sei. Dan... Disse que... Eu salvei sua vida. E quis salvar a minha...

            __Hum...__Hugo diz, dando uma gargalhada. __Ele está apaixonado por você, então?!

            __Não... Eu não sei por que ele me salvou. __Eu me esforço para continuar aquele diálogo confuso. Eu não me importo de que eles me achem culpada. Apenas quero que a justiça seja feita, que todos saibam que meus pais foram assassinados. __Eu acho que... É um seqüestro.

            __E quem pagaria o seu resgate?! Seus pais?!

            __Não... Eu não sei o que ele quer comigo.

            __Acho que eu sei. __Hugo sorri com malícia, umedecendo seus lábios com sua língua ferina. __E ele conseguiu?!

            __Não! __Exclamo estupefata com a direção que a conversa está tomando.__ Ele disse que... Alguém o mandou matar minha família. Mas... Eu não acredito.

            __Você acredita em que então?! __Gritou Augusto, não mais se contendo, recebendo um olhar desaprovador de Hugo.

            __Eu não sei. Deve ser um seqüestro... Ou ele quis... Que eu sofresse por não ter morrido com eles... Ou foi o destino... __Digo fatigada. __Que queria que eu entregasse à polícia... O assassino dos meus pais... Antes de me juntar a eles... Por não ter feito isso... Quando pude.

            __O destino?! __Exclama Hugo, sorrindo abertamente. __Deve ter sido mesmo. Mas se você mesma não sabe em que acreditar, imagine nós!

            __Mas... Foi Dan que os matou... Isso eu sei. __Continuo desesperançada.

            __Será?! Você não está nos ajudando, Manuela. __Hugo não parece mais tão simpático, na verdade, parece irritado. __ Onde estão os seus pais?! __Vocifera Hugo, me fazendo encolher contra o meu assento, quando ele se levanta subitamente, derrubando sua cadeira ao chão, e se segurando nas bordas da mesa.

            __Eles estão mortos! __Grito, quando uma descarga de adrenalina me percorre o corpo em pânico. Minha mente se desperta e posso ver que nada está como o planejado. Na verdade, parece que eu saí de um pesadelo para outro ainda maior.

            __E você também deveria estar! __Ouço Augusto gritar, antes de me esbofetear o rosto. Sinto meu rosto queimar, as lágrimas que tentam lavá-lo não aliviam a dor, mas me confortam. Eu me abraço ás minhas pernas, tentando me proteger, e pedindo para que tudo isso seja rápido. Se eles planejam me matar, que sejam breves. Todavia, meu pedido não é atingido.

            __Não se preocupe com o Augusto. __Recomeça Hugo, aproximando-se de mim e retirando meu cabelo do meu rosto. Ele sorri, enquanto encara meus olhos assustados, mas posso ver seu olhar frio e cruel. __Ele está estressado. Nós só estávamos percorrendo a cidade. Imagine nossa surpresa quando a vimos correndo pelas calçadas da cidade. Sangrando e parecendo abatida, mas viva. O Augusto não ficou muito feliz. Mas nós não queremos vê-lo triste, né? Ou mesmo estressado, pois já sabemos como ele fica violento. Você só precisa dizer onde estão seus pais. Fácil, não?!

            __Eles... Estão... Mortos... __Respondo entre lágrimas, sentindo o gosto de sangue nos meus lábios.

Hugo ainda sorri enquanto estapeia meu rosto repetidas vezes, e diz:

__O que você disse mesmo?! Eu não ouvi. Essa sala é tão barulhenta. Estão fora do país?!

            Meu rosto arde, no entanto meu coração dói mais. Uma angústia invade meu peito, mas agradeço por meus pais não terem passado por isso. Eu não faço idéia de quem pode ter querido matá-los, e essa idéia já não parece mais tão absurda para mim. Dan estava certo, alguém o pagara para matar meus pais, e eu sou grata por ele ter feito isso logo, antes que eles precisassem passar por isso.

            Hugo ainda encara meus olhos. Eu sou uma presa fácil. Sinto-me a pessoa mais tola do mundo. No final da contas, Dan me protegia. Á sua maneira, mas não estivera mentindo. Eu espero que ele não me odeie, e entenda meus motivos. Talvez ele tenha salvado minha vida, achando que ela valeria a pena, mas eu não merecia.  É isso o que eu mereço.

            Então eu não sobrevivera para entregar Dan à polícia, afinal. E sim para morrer lentamente. É essa minha punição. Morrer em vão. Ótimo. Vamos entrar no jogo.

            __Estão... Mortos... __Respondo, agradecendo quando o torpor volta a obscurecer minha mente. Talvez isso torne minha morte mais fácil e rápida, e menos dolorosa, não que a dor importe. Só não quero dá-los o prazer de me ver gritar e chorar.

Tanto que mal sinto quando, mal acabando de ter respondido a pergunta, Augusto vem como um tufão para cima de mim, levantando-me num impulso, sem que meus pés encostem o chão, sacudindo-me e falando coisas sem sentido. Eu encaro seus olhos sem entender o que ele está fazendo, e ele me lança contra a parede, na qual me choco, deslizando para o chão.

Vejo Hugo repreender Augusto, dizendo:

__Não podemos matá-la. Precisamos de respostas. Precisamos dela viva! É melhor você se controlar! __Conclui, empurrando Augusto, que levanta uma das cadeiras e se senta, observando a cena em silêncio.

            Hugo senta-se à minha frente, no chão. Seu sorriso irônico permanece em seus lábios. Eu me encolho contra a parede, fitando seu olhar gélido. Sinto minha respiração superficial e acelerada movimentar meu corpo involuntariamente. Confusa, minha mente não consegue associar essa cena com meus pais. Parece que mergulhei no mundo dos pesadelos, e minha vida passada agora faz parte de um mundo distante, de sonhos e alegrias completamente irreais.

            __Você não está ajudando. __Diz, enquanto se aproxima de mim. Ele segura o meu pé machucado e o puxa para si com delicadeza, colocando-o em seu colo. Não faço resistência. Uma sensação ruim sobe do meu peito até minha cabeça, escurecendo minha vista. Pequenos pontos de luz brincam diante dos meus olhos, e eles se intensificam num objeto que vejo Hugo segurar, o qual percebo ser uma faca.

            Eu não entendo, e procuro o rosto de Augusto, esperando que ele me explique, e vejo um brilho feroz em seus olhos, acompanhado de um sorriso torto em seus lábios. Volto meu olhar para Hugo, a sala volta a ficar mais clara, e ele sorri:

            __Acho que não começamos bem. Vamos começar tudo de novo. Eu pergunto, e você responde. Sem mentiras, sem jogos, e sem violência.

            Eu não respondo, mas ele prossegue.

            __Onde estão os seus pais?!

            __...

            __Você está me ouvindo?! __Indaga, segurando meu rosto cuidadosamente. __Onde estão os seus pais?!

            __Eles... __Digo, esforçando-me para que minha boca me obedeça. __Estão... Mortos.

            __Resposta errada. __ Sorri, parecendo decepcionado. Eu tento sorrir de volta, mas em vez de meus lábios obedecerem ao meu comando, eles libertam um grito de dor desesperado quando sinto Hugo perfurar com a ponta da faca o meu ferimento.

            O meu corpo se contorce em dor, num impulso involuntário tento recolher meu pé, numa tentativa de protegê-lo, mas percebo a mão firme de Hugo prendendo-o. Meu rosto está úmido pelas lágrimas e pelas gotículas de suor frio que surgem. Ouço-me chorar gemendo, contra a minha vontade. Como uma criança apavorada, dou um grito assustador, quando ele continua o seu trabalho, perfurando outro ponto do meu pé.

            __Não! Pára! Por favor! Pára! __Escuto minha voz enfraquecida e entrecortada implorar. __O que você quer?!

            __Essa é uma ótima pergunta. __Comenta, limpando a ponta da faca, banhada em sangue, no pano que antes enrolava meu pé. __ E melhor ainda a resposta. Entretanto, você já a conhece.

            __É só o que eu sei. __Choramingo para minha vergonha. __Que eles estão mor... __Porém sou interrompida, pelo ataque súbito de fúria de Augusto, que se levanta da cadeira, e se aproxima do meu rosto, segurando-o com força.

            __Você já disse isso. Eu não agüento mais, Hugo. Vamos acabar logo com ela, e pegar nosso dinheiro.

            Meu corpo relaxa em gozo. Finalmente, o que eu mais espero. Eu sorrio diante da perspectiva de reencontrar meus pais. Peço a Deus que perdoe meus pecados e que me permita ir para o céu, encontrá-los. Contudo, antes que Deus me abra as portas do paraíso, escuto gritos na ante-sala, rapidamente silenciados.

            Não sou apenas eu que percebo a movimentação. Augusto parece assustado, e Hugo se levanta rapidamente, encarando a porta assombrado, como se a qualquer momento por ela fosse entrar o monstro de seus piores pesadelos. Eles pegam suas armas, num movimento instintivo, tão rapidamente que mal sei de onde as tiraram, e as apontam para a porta.

            O silêncio é apavorante. E me angustio por meus pedidos terem sido atrapalhados por aquela estranha interrupção. Ouço apenas o som da minha respiração ofegante, e a tensão dos meus algozes é perceptível. Posso até mesmo vê-los suarem frio em seus ternos caros, e não me impeço de sorrir.

            Não faço idéia do que eles imaginam que possa surgir por essa porta.  No entanto, independente do que seja, fico grata por aquela última vingança. Ver meus torturadores sofrerem como eu sofrera é reconfortante. Não me importo com o que essa repentina ameaça poderá fazer comigo, apenas desejo que ela não prolongue essa demora, e que seja rápida e prática nessa execução.

            Esforço-me para me manter alerta, lutando contra o torpor que me invade, pois de algum modo, não quero perder nenhum detalhe. E antes que eu possa piscar, vejo a porta que antes parecera resistente se abrir num milissegundo, apenas com um chute certeiro de um homem desconhecido.

            Ele é alvejado pelos dois homens que permanecem em suas posições. O corpo do homem é então lançado contra eles, fazendo Hugo cair assustado próximo a mim. Ainda deitado, ele tenta recarregar sua arma, e no outro segundo, o vejo permanecer imóvel no chão, derramando sangue pela boca.

            Antes que eu possa me encolher de volta à parede, vejo Augusto cair da mesma forma, inerte, e encontro o olhar frio de Dan. Eu estava mesmo errada. Tenho a sensação de que esse olhar frio não me abandonará tão cedo.

sábado, 11 de agosto de 2012

Capítulo 5 - Fogo (parte 2)


Consigo abrir meus olhos com grande esforço. Eles parecem insuportavelmente pesados, assim como minha cabeça, meus braços e pernas, todo o meu corpo. Eu estou sentada e presa, embora mesmo que estivesse livre, acredito que seria impossível me mover.

Olho ao meu redor com dificuldade, e posso enxergar sem clareza um homem ao meu lado. Ele parece estar dirigindo, e percebo que estou num carro, e o que me prende é o cinto de segurança. Isso não me parece menos assustador do que o que eu pensara antes, que estava presa numa cadeira elétrica ou numa sala de torturas.

As imagens que ainda estão recentes na minha memória, as quais afasto como um sonho ruim, me fazem lembrar de quem esse homem talvez seja, Dan. Ainda posso sentir o calor insuportável do meu quarto incendiado, apesar do frio que é emanado dos filtros de ar-condicionado do carro, e a última coisa de que me recordo são as estrelas que não mais brilhavam no teto do meu quarto, uma vez que a claridade era imensa, e elas eram consumidas pelas chamas.

Ainda posso olhar pela janela as árvores que passam como sombras na noite escura que nos envolve. Não consigo descobrir onde estou, nem aonde parecemos estar indo. No entanto, isso me lembra a fronteira do estado, a qual atravessara há alguns anos numa viagem de carro com meus pais.

Quando a imagem de meus pais vem a minha mente, e o pensamento desesperador do que pode ter acontecido com eles me aflige, Dan parece perceber minha agitação e com um estremecimento encontro seu olhar. Ele me encara com calma, e poderia dizer quase com ternura, não mais com o olhar frio e sério que o vira usar no meu quarto.

Sua mão segura meu braço, e seu calor quase me queima. Ainda com um ar calmo, ele fala:

__Calma. É melhor você voltar a dormir.

E é quando eu percebo que ele não segurava o meu braço apenas numa tentativa de me acalmar, pelo menos não a que eu esperava. Ele pára o carro, e o vejo retirar uma seringa repleta de um conteúdo transparente de uma pequena caixa. Ele levanta a manga do meu pijama, que se eu não estivesse tão aterrorizada teria percebido com vergonha que ainda o vestia, até a altura do meu cotovelo, e limpa a região anterior do meu cotovelo com um algodão seco.

Quando ele perfura minha veia com a agulha, e aperta o êmbolo, injetando todo o conteúdo, mal posso sentir a dor da injeção, uma vez que uma calma repentina e deliciosa me enleva. E antes que eu adormeça mais uma vez, percebo meu sorriso, que não é retribuído por Dan.




Minha cabeça dói, assim como todo o meu corpo. Pelo menos estou deitada agora numa confortável cama de casal, e percebo com alívio que estou sozinha. Mas logo meus olhos encontram Dan, parecendo adormecido numa poltrona, de costas para a televisão e a janela e de frente para mim.

Minha mente ainda não parece muito clara, mas reparo que não há nada me prendendo a cama. O quarto é pequeno, mas bastante arrumado. Há rosas vermelhas nos criados-mudos e algumas na cama, e embora pareça extremamente com uma cena de filme de Hollywood, acredito estar num motel. Afasto essa idéia da minha mente, e volto a olhar o quarto, ignorando as flores e o champanhe com duas taças vazias e um balde de gelo na mesa. Ele seria quase bonito, se não fosse o excessivo uso do vermelho nos forros das poltronas, no pequeno sofá, nas cortinas e nas roupas de cama.

Há um frigobar, e percebo um refrigerante quase vazio próximo a Dan. O quarto é ricamente mobiliado, como diria minha mãe. Pensar nela faz meu coração se apertar, e talvez seja isso que me dá impulso para tentar levantar, fugir.

Meus braços tremem violentamente quando me apóio neles numa tentativa de sair da cama. Luto contra o impulso da gravidade que age contra meu corpo, querendo empurrá-lo de volta aos lençóis de seda vermelhos.

Consigo me sentar à beira da cama, e é estranho não encontrar meus chinelos ao seu lado. O chão parece imensamente gelado aos meus pés. Observo-o à procura de qualquer tapete, e uma vertigem quase me joga contra ele.

__Você não deveria fazer isso. __Ouço Dan dizer.

Com dificuldade, levanto minha cabeça que pesa insuportavelmente, e encaro sua expressão fria, a qual não demonstra o mínimo de fadiga ou sono. Uma onda súbita de enjôo quase joga o meu corpo para frente, mas antes que eu possa sujar todo o chão aos meus pés, Dan me estende o balde de gelo, no qual esvazio meu conteúdo estomacal.

Ele retira os meus cabelos que caíam ao lado do meu rosto úmido e os segura atrás da minha cabeça, enquanto me alivio. Meu rosto está suado, e o cansaço me invade, mas me sinto melhor quando termino de vomitar.

Dan enxuga o meu rosto com uma toalha macia. O gosto é insuportável em minha boca, o que ele parece perceber, pois me levanta da cama, com um dos meus braços apoiado ao redor de seu pescoço, e seu braço em volta da minha cintura. Mal consigo andar até o banheiro, com minhas pernas que tremem a cada passo, e contra a minha vontade me apóio cada vez mais contra o seu corpo. Ele me senta cuidadosamente na beirada da banheira de hidromassagem repleta com espuma e pétalas de rosa.

Ele liga a torneira e lava o meu rosto. Eu tento empurrar sua mão, quando ele segura o que percebo ser a minha escova de dente, tentando pegá-la, numa tentativa ineficaz de dizer que não preciso de sua ajuda.

Dan empurra minha mão e diz enquanto começa a escovar os meus dentes.

__Tudo bem. Isso acontece com algumas pessoas. Você não deveria ter tentado se levantar.

Penso em qualquer coisa para dizer em minha defesa, ou atacá-lo, mas sei que mesmo que minha boca não estivesse ocupada, cuspindo a água, que ele me fizera ingerir para expulsar o restante da pasta, e mesmo que eu tivesse algo a dizer, o que eu não tenho, não conseguiria, pois minha fraqueza me impede até mesmo de resistir quando ele retira a camisa do meu pijama.

Encaro seus olhos assustada, e tímida por estar protegida apenas por uma pequena blusa que eu usava para dormir.

__Tudo bem. É só para você ficar mais confortável. Você está muito suada. E você não tem condições de tomar banho sozinha. E acho que não ficaria muito feliz se eu fizesse isso por você.

Eu o sinto inclinar cuidadosamente minha cabeça contra a banheira e lavar meus cabelos. Com uma toalha enrolada nos cabelos, e me sentindo surpreendentemente melhor, Dan me conduz à cama. Eu deito, me escondendo sob os lençóis, para que ele não tenha mais uma visão desconfortável da minha blusa curta.  

Dan aumenta a potência do ar-condicionado, e o vejo novamente retirar outra seringa da mesma caixa com o mesmo conteúdo transparente. Não consigo reagir, nem ao menos me mover, apenas sei que meus olhos transparecem o meu horror. E ouço uma voz que parece rouca e embargada, mas que percebo ser a minha, dizer:

__Não. __E o esforço de dizê-la quase me faz adormecer novamente.

__Tudo bem. Eu diminuí a dose. É melhor se você estiver dormindo, a viagem pode ser desconfortável e é longa. Você só não pode tentar se mover nem se levantar novamente.

E antes que eu possa juntar todas as minhas forças para dizer outro não, sinto a picada da agulha na minha outra fossa cubital e adormeço. No entanto dessa vez eu não sorrio. Mas Dan, sim.




            Eu desperto e relembro o que Dan recomendara, eu não deveria me mover ou tentar me levantar. Embora minha cabeça não esteja tão mais pesada e dolorida, apesar de minha mente ainda parecer enevoada, e eu não esteja mais deitada, e sim sentada novamente no banco do carro, acho melhor obedecer a ele.

            Ele surge ao meu lado, abrindo a porta do carro. Ao ver que meus olhos estão abertos, Dan me levanta e me ajuda a andar, mais me carregando, como fizera antes. Ele me ajuda a sair, e não evito imaginar que ele me carregaria nos braços se eu não estivesse desperta, e me reprovo inconscientemente por não ter fingido, embora acredite que ele perceberia a diferença.

            Meus pés tocam o chão e eles estão protegidos por uma das minhas sandálias que eu costumava usar em casa. Reparo na minha roupa, e com espanto me deparo com um dos meus vestidos de verão, coberta por um casaco desconhecido, sem saber que fim havia tomado o meu pijama.

            No entanto, meu olhar tenta fazer um reconhecimento da área, enquanto sou conduzida por Dan. Seu carro é esporte, parecendo importado, e tão escuro que quase se confunde com a escuridão ao redor. Olho para a rua, e ela parece fazer parte de um bairro residencial, com algumas casas esparsas. Esforço-me para ver se reconheço o local, mas em vão. Começo a acreditar que nem no mesmo Estado estamos.

            Dan pára em frente à porta de uma pequena casa, mas que parece aconchegante, impedindo que eu continue a tentar reconhecer onde estamos. Ele gira a chave na fechadura, e liga a luz, me adentrando numa pequena sala de estar quase receptiva, mobiliada com uma televisão e um conjunto de sofás ao redor de um centro de mesa com um vaso de flores já murchas.

            A sala se separa da cozinha americana por um balcão, na qual eu consigo divisar uma geladeira pequena, um fogão, um microondas, além de uma pia e armários. Ele me conduz por um corredor no qual há três portas, duas entreabertas, uma parecendo um banheiro e a outra um quarto. Dan me leva até a porta que permanece fechada, ao lado da porta do quarto, e logo me vejo num pequeno, mas aconchegante cômodo, mobiliado com uma cama de solteiro, uma cômoda com espelho e uma estante.

            Há um toque quase feminino no quarto, pelo menos ele parece mais arrumado do que o restante da casa, e me pergunto se e há quanto tempo Dan planejava me trazer aqui.

Ele retira com gentileza o meu casaco, e me segurando com um braço, puxa a colcha da cama com o outro, deitando-me e cobrindo-me com ela.  Eu me sinto mais sonolenta quando minha cabeça encosta no travesseiro. Dan dá um sorriso torto quando começo a fechar os olhos novamente, e o vejo pegar a caixa da seringas. E antes que eu possa reagir, o que não tenho certeza de que faria, visto que já começava a gostar da sensação que esse líquido transparente me causa quando circula no meu corpo, inebriando meu cérebro, percebo que é uma seringa com um líquido diferente. E enquanto Dan o injeta em minha circulação, e coloca o chumaço de algodão para conter o sangramento, diz:

__Está na hora de acordar, bela adormecida.