sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Capítulo 5 - Fogo


É quinta-feira e eu estou exausta. Após passar o dia inteiro numa maratona de revisão no curso pré-vestibular para a prova que será no domingo, a única coisa de que preciso é dormir.

Já passava das oito horas quando Marcelo me trouxe para casa depois da aula. Ele parecia imensamente satisfeito quando se despediu de mim ao portão. Seria no domingo o dia. O dia do vestibular, da festa que meus pais acabaram por permitir, pois viajariam no fim de semana, em troca de haver extrema segurança e ser sem álcool. Embora a minha última festa não tenha sido mencionada, ninguém havia esquecido o que acontecera. Apesar de que nenhum dos meus amigos pareceram se importar, uma vez que ficaram extremamente felizes e ansiosos com o convite.

E seria a minha noite com Marcelo. Eu cumpriria minha promessa.

Meu pai se serve de mais uma porção de sopa. E faço o mesmo. Mal havia me alimentado por todo o dia. E além de sonolenta, estou faminta. Ansiosa para que o domingo venha logo, apesar de todos os possíveis acontecimentos do dia, nos quais não consigo pensar sem estremecer, me distraio ouvindo a conversa de minha mãe:

__Eu tenho que falar urgentemente com a mãe do Marcelo. Que vestido era aquele que ela usava na formatura? E ela é uma mulher bonita, deveria se arrumar mais. Ela tem roupas bonitas, só não sabe combiná-las.

Meu pai parece distante, ingerindo distraidamente o conteúdo da colher que leva à boca. Enquanto minha mãe que se serve de mais uma torrada integral com queijo branco, seu jantar, se dirige a mim, mudando de assunto:

__Manu, você deveria chamar algumas das meninas para passarem o fim de semana aqui em casa. Para você não ficar sozinha. Você sabe que nós só vamos viajar para que você tenha sua festinha com total liberdade. Mas seria bom ter companhia.

__Eu vou ver. __Respondo. __Está todo mundo preocupado com o vestibular.

__Por isso mesmo. Deveriam estudar juntas. E também nós só vamos viajar no sábado de manhã, e não é bom estudar em véspera de prova. Você sabe que vai se dar muito bem. Nada de ficar nervosa. A vida é feita de desafios, e por mais que eles pareçam difíceis ou até impossíveis de contornar e enfrentar, é só ter fé e calma que tudo ficará bem.

__Tudo bem. Tomara que seja verdade. Mas agora eu preciso dormir.__Digo, me levantando da mesa. Rodeio a mesa e beijo o belo rosto da minha mãe. Ela sorri e retribui, beijando docemente minha mão entre as dela.

Encontro meu pai na outra ponta da mesa. Ele me observa e sorri quando eu o abraço e lhe dou um beijo de boa noite.

­­__ Amanhã tem revisão logo cedo. Você pode me levar quando for para o escritório?

__Hum. O beijo não era de graça afinal. __Brinca com um sorriso contagiante.

__Claro que era! __Exclamo sorrindo, e o beijando novamente. __E se aquele era, esse não é. Boa noite. Até amanhã.

__Até amanhã. __Eles respondem em uníssono. E essas duas palavras nunca sairão da minha mente.



Dan está sentado ao balcão. As luzes da festa multicoloridas brincam na sua roupa preta e em seu rosto. Ele brinca com o copo de uísque, cujo conteúdo parece um mar turbulento, os gelos batendo contra as paredes de vidro, agitados pelos movimentos rítmicos de sua mão.

Ele engole parte do conteúdo do copo. E, embora eu já saiba o que acontece nesse sonho, por tê-lo tido tantas vezes que parece novamente real, eu sinto um impulso irresistível de ir até ele. Sento-me ao seu lado, e todo sangue parece se esvair do meu corpo, deixando-me um frio glacial no abdome.

Os meus músculos se contraem em espasmos, sinto meu corpo tremer, meus pêlos eriçados, numa tentativa frustrada de produzir e reter o máximo de calor possível, para me impedir de cair desfalecida aos pés de Dan.

Eu estou tão perto dele, que posso senti-lo. Posso quase sentir o seu cheiro. Encontro os seus olhos, e eles parecem diferentes dos outros sonhos. Agora parecem em total alerta e quase assustados, como se qualquer movimento meu ou seu fosse fatal. Ele também não está sorrindo, seu rosto parece frio e sério. Seu cabelo também parece um pouco maior, cobrindo mais seus olhos.

Sinto sua mão tocar o meu rosto e me pergunto o que houve com o enredo do meu sonho que agora me parece estranho. Procuro seus olhos novamente e eles ainda estão lá me encarando. O impulso de gritar seu nome vem precocemente, mas antes que possa libertá-lo, sinto sua mão firme e quente em minha boca.

No entanto, isso me acalma. Embora em ordem invertida, meu sonho volta ao normal. Ou talvez a calma seja porque olho para cima e encontro as estrelas fosforescentes que meu pai pregara há tantos anos no teto do meu quarto.

É estranho ver Dan fora do seu cenário habitual, minha festa de aniversário. E começo a ficar realmente assustada quando meu sonho já não parece tão irreal.

Entretanto parece tarde demais quando percebo que não estou sonhando, pois, mesmo com a mão de Dan no meu rosto, ainda consigo ver meu quarto em chamas, antes que o cheiro do éter me envolva em seus lençóis vermelhos e me adormeça para sempre.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Capítulo 4 - Despedida (parte 2)


Eu mal pude conter um grito de exclamação ao entrar no ginásio da escola, sempre palco das minhas maiores torturas e humilhações, por minha falta de talento esportivo, e vê-lo brilhando com pedaços de papel prateados pelo chão e pelas mesas, globos de espelho pendurados por todo o teto, arranjos de rosas brancas e cor-de-rosa nas mesas forradas assim como as cadeiras. Sorri para minha mãe, que seguia deslumbrante em seu vestido verde escuro, de braços dados com meu pai que desfilava gracioso em seu smoking. Ela tentava, sem sucesso, disfarçar seu orgulho por ter sido uma das organizadoras da festa.

Meu pai parecia igualmente admirado, poderia dizer quase emocionado, enquanto nos aproximávamos da mesa destinada a nós. Tentei não me incomodar com suas demonstrações públicas de afeto, ainda mais por serem raras para um casal tão jovem e bonito, mas mesmo assim percorri o olhar pelo salão, logo divisando a maioria das meninas com seus respectivos pais e parceiros. Elas acenaram ao longe, pois logo depois teríamos todo o tempo para conversar, enquanto ficaríamos duas horas sentadas na frente do palco que fora instalado, ouvindo metade do corpo docente, além de oradores e juramentistas.

Meus pais pareciam extremamente felizes compartilhando um dos meus maiores momentos escolares. Eles cumprimentaram os pais dos outros alunos e professores que me deixavam ruborizada enquanto ressaltavam minha inteligência e dedicação, e o quanto estavam confiantes de que eu seria aprovada no vestibular.

            Meu pai sorriu, passando seu braço ao redor dos meus ombros, e me apertando no seu abraço carinhoso:

            __Eu nunca tive dúvidas disso. Mas obrigada por ter notado. Assim não sou só eu que percebo o quanto ela é uma garota incrível. Uma princesa. __E me beijou na testa. Eu me surpreendi com a demonstração amorosa pública. Eu já sabia de tudo que ele falara, mas era estranho vê-lo falar tão aberta e emocionadamente. Eu retribui o beijo, e logo me vi num abraço familiar, quando minha mãe se juntou a nós.

Enxugando as lágrimas, tentando escondê-las de mim, minha mãe sussurrou ao meu ouvido:

__Você foi o meu melhor presente. Eu tenho tanto orgulho de você. Eu nunca me arrependi de ter abandonado a minha vida antiga para cuidar de você. Porque desde o dia em que você nasceu, você é minha vida.

__E vocês duas são a minha. __Ouvi meu pai dizer.

Eu tentei segurar, ao máximo que pude, as lágrimas que começavam a rolar pelo meu rosto. Ainda bem que eu usara um rímel à prova d’água, talvez já prevendo alguma cena como essa.

A voz do diretor Braga vinda das caixas de som interrompeu nosso momento familiar. Meu pai tossiu, e vi pequenos brilhos no canto de seus olhos, os quais, se não conhecesse meu pai tão bem, poderiam ser lágrimas. Minha mãe endireitou o meu vestido de seda cor-de-rosa que se amarrotara com o abraço e secou as lágrimas nos meus olhos, enquanto verificava minha maquiagem. Ela sorriu em aprovação e me disse para ir brilhar. E eu fui.

Entretanto, antes que pudesse alcançar a cadeira que a professora de português Sandra me indicava, senti um abraço carinhoso e me virei, me deparando com Marcelo. Ele estava lindo. Seu cabelo loiro meio bagunçado com o gel, seu sorriso cativante, e sua respiração ofegante, parecendo que tinha corrido.

__Desculpa a demora. Minha família toda veio para a festa. Até a minha avó. Eles não queriam me deixar vir sem eles, mas eu tinha que comprar alguma coisa para você. Que pudesse representar essa noite e que sempre fizesse você se lembrar de mim.

E então ele me deu uma minúscula caixinha de veludo preto. Eu a abri e encontrei dois anéis de ouro branco entrelaçado. Eles tinham escritos em sua borda interior em uma letra minúscula “Marcelo e Manu”. Eu não consegui dizer nada, então ele continuou:

__É só um anel de compromisso, Manu. Eu sei como essa noite é importante para nós, então eu decidi fazer uma surpresa. E agora nós estamos saindo da escola, vamos para a faculdade, estudar separados. Mas eu quero que você saiba que isso não é só um romance de colegial para mim. E é isso o que representa. Que apesar de outros caminhos estarem nos sendo apresentados agora, que eles continuem entrelaçados.

Eu me perguntei se ele ensaiara aquele discurso. Foi tão perfeito. Tão lindo. E eu não tinha o que dizer. E então o beijei. Ele deve ter considerado como um sim, uma vez que tirou um dos anéis e colocou no meu dedo anular direito e me entregou o outro para eu fazer o mesmo. E foi o que eu fiz antes de sermos separados para sentar nas duas fileiras diferentes de alunos, num lado os garotos e no outro, as garotas.

E passei as próximas duas horas ouvindo o mais longo e entediante discurso da minha vida, no entanto não me importei, porque todo parto, que dá início a uma nova vida, sempre é doloroso e demorado.



Eu não consegui nem mesmo me cansar de tanto tirar fotos, com os meus pais foram inúmeras, com minha turma, com as meninas, com Marcelo e seus pais. O jantar foi servido e já era uma hora da manhã quando meus pais decidiram ir embora. Na verdade, meu pai pareceu relutante em me deixar ficar até mais tarde, mas o olhar autoritário de minha mãe logo o fez desistir, dizendo-me para ter juízo, enquanto beijava minha testa. Minha mãe radiava de felicidade quando me abraçou, ainda encantada com o anel que Marcelo me dera, no qual ela reparara assim que me abraçara após eu ter recebido o meu diploma.

Meu pai despediu-se de Marcelo com um aperto de mão que o fez sorrir constrangido, e cumprimentou seus pais que também já iam embora com um aceno de cabeça. Minha mãe abraçou Marcelo calorosamente, que pareceu mais aliviado, e acompanhada pelo meu pai saiu pela porta do ginásio juntamente com os outros pais.

E foi então, enquanto eu distraída admirava aquele lindo casal que tinha o privilégio de chamar de pais saírem pela porta, que Marcelo puxando-me carinhosamente me chamou para dançar. E eu fui.



Marcelo toca o meu rosto cuidadosamente e me pergunta se estou com sono, pois pareço distante. Peço desculpas e lhe dou um beijo, o qual ele retribui com voracidade, não parecendo se incomodar com as pessoas que nos rodeiam, talvez por eles estarem fazendo o mesmo. Ele me ergue e se levanta da cadeira.

__Nós já estamos indo, galera. __Ele fala me abraçando mais forte. Eles param de fazer o que estavam fazendo e se levantam para se despedir.  Quando Martha me abraça, por algum motivo eu sinto as lágrimas virem aos meus olhos e não quero mais soltá-la. O mesmo acontece quando abraço todos os demais.

Quando Thaís chora me abraçando, não mais consigo me conter e me ouço soluçar. Ela sorri e diz:

__Calma. Até parece que nós nunca mais vamos nos ver. Nós todos vamos continuar nos visitando. Vamos nos encontrar nos corredores da universidade, mesmo que não fazendo os mesmos cursos. Nós moramos na mesma cidade. O mundo não acabou. __Ela diz entre soluços.

__E ainda tem o vestibular. Daqui a uma semana. Nós podíamos fazer uma festa depois da prova para comemorar. Podia ser na sua casa, né, Manu? __Sugere Bárbara.

__Pode ser.

__Até mais então, galera. Boa sorte para todo mundo na prova. __Finaliza Marcelo me conduzindo pela cintura através do salão.

Passando pela porta, eu olho novamente para os meus amigos, ainda sentados à mesa, eu sorrio e aceno, recebendo alguns poucos acenos de volta. É estranha a sensação de estar pela última vez nessa escola, e passar pela última vez por essa porta. E nessa sensação de vazio, de perda e despedida, eu continuo sorrindo triste e acenando, querendo olhar fixamente para seus rostos, na tentativa de guardá-los na memória nos mínimos detalhes. Sentindo como se fosse vê-los pela última vez. Mal sabendo eu que estou tão próxima à verdade.



Marcelo abre a porta do carro para mim. Eu entro e sorrio quando ele entra também, tentando disfarçar a tristeza sem sentido que me invade. Evito olhar uma última vez para o prédio da minha antiga escola, mas não consigo. Mas antes que as lágrimas que chegam aos meus olhos sejam derramadas, sinto a mão de Marcelo no meu rosto.

Ele me encara seriamente, enquanto acaricia meus cabelos, deslizando sua mão pelo meu pescoço, meus ombros e meus braços, aproximando-se de mim e me beijando intensamente. Eu retribuo o beijo e estremeço diante da sua avidez, e ainda mais com a vontade súbita que sinto de que ele continue. Marcelo sorri quando eu o abraço e me aproximo ainda mais, e diz:

__Nós devíamos ir para outro lugar. Eu tenho outra surpresa para você. __Completa sorrindo e beijando carinhosamente o anel em meu dedo.

Talvez tenha sido o seu olhar maliciosamente assustador, ou o medo de dar um grande passo, ou ainda o masoquismo de lutar contra as minhas mais íntimas vontades para apenas deixá-las mais fortes. Mas me ouço dizer:

__Acho melhor não.

Ele não parece entender e pergunta intrigado:

__Você prefere aqui mesmo?

__Não! __Exclamo horrorizada olhando novamente para o prédio da escola. __É só que eu estou um pouco cansada. Foi a nossa festa de formatura e eu só quero ir para casa.

__Mas por isso mesmo. __Marcelo continua tentando esconder sua frustração. __ É a nossa formatura. Hoje seria mais romântico, não?!

__Sim. Mas nós temos todo o verão. E eu não quero que só você me dê surpresas. Eu quero surpreender você também. __Ouço-me dizer, sem saber ao certo o que isso significa.

Entretanto, Marcelo não parece mais decepcionado, e sorri com curiosidade nos olhos.

__Você não precisa me surpreender. __Ele prossegue, embora seus olhos digam o contrário. __Eu só quero você.

__E você terá. Só não hoje. Tudo bem?!__Tento dissuadi-lo.

__Está bem. __Ele sorri me beijando, enquanto pisa no acelerador. __Só não me faz esperar muito, por favor. Pode ser esse ano ainda? __Ele pergunta com um sorriso esperançoso, sabendo que já estamos no início de Dezembro.

__Esse ano. __Eu confirmo sorrindo. __Não vou fazer você esperar muito. __Então o beijo demoradamente, sentindo seu corpo firme contra o meu, e tentando me convencer a esperar. “Nós temos todo o verão”, repito para mim mesma. E encontrando seus olhos satisfeitos, dou meu melhor sorriso, fazendo promessas que nunca poderei cumprir.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Capítulo 4 - Despedida


Os braços de Marcelo rodeiam minha cintura, e seu corpo está tão próximo ao meu, que sinto as batidas aceleradas do seu coração contra meu peito. Seu rosto está encostado ao meu, enquanto mergulho no azul de seus olhos, e sinto sua respiração rítmica queimar minha pele. 

Nós apenas nos encaramos sem sorrir, apesar da felicidade imensa que quase nos sufoca. Talvez porque saibamos que apenas um sorriso não será capaz de demonstrar a grandeza do momento, então apenas assistimos e participamos de tudo sem reação.

Ele me empurra, embora continue me segurando pela mão, e me faz girar pelo salão. Ele me puxa de volta e me abraça de costas contra ele, me balançando no ritmo da música antiga e romântica que sai das caixas de som espalhadas pelas paredes do ginásio da escola. Sinto suas mãos firmes e presas às minhas e desejo que elas nunca saiam dali. Ele me impulsiona para longe novamente, e enquanto rodopio com meu vestido de festa cor-de-rosa que parece flutuar aos meus movimentos, encontro seu olhar, e posso estar errada, no entanto nele pareço encontrar o mesmo amor que me preenche a alma.

Ele me puxa novamente para si, e não contém uma gargalhada prazerosa quando me choco desajeitadamente contra seu peito. Ele beija minha testa e seus lábios logo encontram os meus, beijando-os docemente. Ele sorri novamente e me conduz para o centro do salão. As luzes do globo de festa se refletem em nossos rostos, e sinto a magia surgir e nos rodear a cada movimento dos nossos corpos.

Enquanto Marcelo me faz rodopiar, firme e graciosamente, sinto-me flutuar e tudo parece um lindo sonho, tão diferente dos que eu havia tendo quase diariamente há mais de um mês. Descanso minha cabeça em seu ombro, quando uma música mais lenta começa, e me pergunto onde ele poderia ter aprendido a dançar assim. E o que eu fizera para merecer tal felicidade.

Uma sensação de prazer me invade, um misto de devaneio e arrebatamento, e não consigo parar de sorrir. Olho para as pessoas ao meu redor. Elas também parecem enfeitiçadas pelo momento. Enquanto lentamente giro, posso divisar Martha que mal pode se conter nos braços de Alexandre, e não importava que ele tivesse convidado Bianca antes para o baile, que recusou para ir com um tenente da aeronáutica, e só depois a ela. Essa é a sua noite, e ela está linda com seus cabelos loiros rodeando graciosamente seu rosto, que parece quase ingênuo de tão plácido.

Luana surpreendentemente parece feliz e um tanto apaixonada enquanto descansa o rosto no ombro de Matheus, e nem ao menos percebe o meu olhar, embora esteja perto de mim. E eu me admiro por nunca ter percebido sua paixão por Matheus, que segundo ela, sempre existira. Até mesmo Bárbara não conversa, curtindo o momento em silêncio enquanto acompanhada de um rapaz desconhecido, também com ares de modelo, dança pelo salão.

Thaís, parecendo uma princesa no seu vestido cor-de-rosa, ainda está mais bonita com seu sorriso que não a abandonou desde que começou a namorar Pedro.

Ainda posso distinguir Esther num modelo extremamente comportado com um convidado desconhecido, mas que agora percebo ser o barman, que está extremamente bem no seu smoking. Ela encontra o meu olhar e sorri numa cumplicidade quase envergonhada.

É estranho como as pessoas parecem lidar melhor, com segurança e sabedoria, com os momentos de tristeza, sem medo de demonstrá-la, enquanto parecem tão tímidas e embaraçadas num momento de imensa felicidade.

Aqui estamos todos nós, comemorando o fim de mais uma fase de nossas vidas. Despedindo-nos da infância e adolescência, quando esperávamos que a realização de nossos sonhos nos fosse dada de presente, pelos nossos pais, ou por qualquer dos símbolos infantis, sem ainda sabermos que nós é que deveríamos correr atrás deles, e que eles deviam ser construídos lentamente, com todo nosso trabalho.

A responsabilidade nos bate à porta. A iminência do vestibular, daqui a uma semana, decidir que caminho tomar, construir uma nova vida, enfrentar novos desafios, entrar em novas lutas, em que a vitória não será certa apenas por sermos os mocinhos e não os vilões, e que não contaremos com superpoderes ou fadas madrinhas para derrotar nossos inimigos.

Aqui estamos no último momento em que podemos sentir a magia dos nossos sonhos enquanto se tornam realidade, em que podemos nos entregar à felicidade sabendo que o amanhã chegará, mas que o que importa é o hoje.

Sinto os lábios de Marcelo em meu ombro, enquanto seus dedos bagunçam meus cabelos em cachos caprichosamente ajeitados num penteado. Eu sorrio e o puxo para mais perto de mim. Eu o ouço sorrir com sua respiração suspirosa que arrepia os pêlos da minha nuca. Sinto suas mãos percorrerem as minhas costas e pararem novamente à minha cintura. Eu afasto minha cabeça sorrindo e encaro seu rosto, e paro de sorrir quando percebo seu ar sério. Seu rosto parece sombrio, e seu olhar intenso me desconcerta. Ele me beija como nunca fizera antes e com a respiração entrecortada confessa:

__Eu amo você.

Eu estremeço, mas de uma forma boa, e ele parece perceber. Seu olhar parece temeroso e quase arrependido. Eu encaro os seus olhos e agora entendo a profundidade do seu olhar que é proporcional à grandeza do sentimento que nos une a partir de hoje e para todo o sempre. E ainda com minhas mãos em volta do seu pescoço declaro:

__Eu também amo você. __E então selo meus lábios nos seus, pedindo que esse momento se eternize.



Meus pés estão cansados e doloridos, mas mal posso senti-los. Sentada a uma das mesas espalhadas pelo salão, não consigo parar de sorrir. Todos parecemos fatigados, o salão começa a se esvaziar, os alunos começam a se dispersar e ir para suas casas e seus novos caminhos. Nós permanecemos aqui, eu quase adormecida no abraço de Marcelo. Martha pendurada no pescoço de Alexandre, que não conseguira fugir por toda a noite, e que se dependesse dela, não fugiria nunca mais. Luana, distraída com os beijos de Matheus, parecendo mal saber o que acontece à sua volta. Bárbara, que já retomou sua fala, e seu acompanhante, Ítalo. Thaís, que de alguma forma conseguira permissão dos pais para ficar até tarde, e Pedro. Até mesmo Esther e Lucas, mais conhecido como barman.

A garçonete que recolhe as taças da mesa boceja e olhando para o relógio de Marcelo vejo que já são três horas da manhã. Ele repara na direção do meu olhar e indaga se eu quero ir embora, balanço a cabeça negativamente e ele sorri me abraçando mais forte. Todos por mais que estejamos cansados relutamos em ir embora. É como se esse salão, após findas as provas, os trabalhos, as aulas de revisão para o vestibular, o mergulho na piscina no último dia de aula, as despedidas aos professores que amávamos odiar, e outros que odiávamos amar e a última passagem nos corredores que havíamos percorrido por toda a vida, segurasse a última corrente que nos prende ao chão.

Agora somos livres para voar, mas tais quais os filhotes de pássaros que se jogam dos seus ninhos nos mais altos galhos das árvores sem saber se terão sucesso na sua empreitada, se alçarão vôo e ganharão o mundo, ou se machucarão uma asa e serão alvos fáceis dos mais cruéis predadores, temos medo de abandonar o ninho, ainda mais se imaginarmos que poderemos estar sozinhos e nossos caminhos não mais se cruzarem.

Sinto as lágrimas brotando dos meus olhos, e disfarço me aninhando no peito de Marcelo. É incrível como me sinto mais calma, e consigo voltar a sorrir das tagarelices de Bárbara.

Mais alguns alunos vão embora e nos acenam em despedida. Aceno de volta enquanto observo o salão. É estranho vê-lo agora sujo com cacos de vidro pelo chão, quando o vi há algumas horas em todo o seu esplendor. A maioria das mesas espalhadas já está sem seus arranjos de flores, com suas toalhas brancas sujas dos mais diversos tipos de bebidas e aperitivos. Aperto meu arranjo de flores contra mim. Ele é uma das inúmeras lembranças que me recordarão dessa noite, uma das melhores da minha vida.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Capítulo 3 - Recomeço (parte 2)


Entretanto, isso poderia acontecer com qualquer um, não? Qualquer um que não tivesse muita sorte. E aquele homem que morrera fatalmente não estava tentando me matar, talvez ele só estivesse com uma arma. Sei lá. Como posso saber os motivos de alguém que anda com uma arma? Deve ter sido por segurança, não? Não foi isso que justificava o NÃO das pessoas no referendo do desarmamento? Embora ele não devesse ter levado uma arma para a festa de todo modo.

Talvez ele soubesse que Dan planejava matá-lo. Ou talvez nem houvesse arma nenhuma, como a polícia confirmara. Estava muito escuro, no final das contas. Assim eu me sentia melhor.            Dan era outra coisa. Ainda não conseguia explicar para mim mesma sua aparição e me confortar de que ele não era um perigo.

Mas ali, vendo minha mãe sorrir e pela primeira vez completamente feliz com o serviço das empregadas, meu pai se esforçando para participar da conversa, Marcelo ao meu lado, segurando minha mão por todo o jantar, e trocando olhares e sorrisos cúmplices comigo, eu percebia que nunca fora tão feliz.

Relembrando das meninas que passaram a tarde comigo, e de como fora divertido conversar com elas, notava que elas eram minhas amigas. E tudo me parecia perfeito. Era extremamente egoísta, mas enquanto uma vida se acabava a minha recomeçava e parecia maravilhosa.

Os meus pais eram ótimos. Minha mãe, uma bela mulher de 36 anos, amiga, conselheira e companheira. Era divertido ver que suas maiores preocupações eram suas festas, a organização da casa, e todas as novas coleções de moda, que segundo ela não se restringia às roupas, mas se estendia até mesmo aos utensílios de banheiro. Ela tivera uma curta carreira de modelo antes de se casar com meu pai, mas logo que nasci, se dedicou a casa, entretanto nunca deixando de ser uma mulher independente e admirável.

Meu pai, um homem sério e poderoso, como podia ver pelo olhar respeitoso que seus subordinados sempre lhe destinaram. Ele contava apenas 40 anos, mas eu sempre me maravilhara com a extensão do seu império. Era engraçado como ele sempre me chamara de sua princesa, e eu sempre acreditara, sem nunca esquecer o que ele mais me ensinara, que do tamanho da sua grandeza deveria ser o tamanho da sua humildade.

E agora eu tinha amigas divertidas. Martha, com seu ar de liderança e sua diversão quase maldosa. Luana com seu jeito desinteressado e cético. Bárbara com sua curiosidade sem fim. Até mesmo Esther, com seu mistério e superioridade. E Thaís sempre meiga e tímida. E talvez elas sempre tenham sido minha amigas, mas apenas agora eu tinha a sorte de perceber. Elas, que auxiliadas por qualquer detalhe do destino, acabaram me unindo a Marcelo. E isso eu nunca poderia esquecer.

Marcelo. Um capítulo à parte. Eu não saberia dizer há quanto tempo ele povoava minha mente. Era estranho tê-lo me beijando demoradamente em despedida após o jantar de domingo, enquanto ele fora o meu maior sonho por tantos anos. Houve outros garotos no início da minha adolescência, mas nenhum nunca ocupara o lugar que sempre pertencera a ele, o qual ele agora empossava.

Sim. A minha vida estava ótima. E eu não poderia assumir a culpa de todos os males do mundo, muito menos deixá-los me impedir de viver, logo quando a estrela da felicidade sorria para mim.

E nem mesmo quando fui à escola no dia seguinte, e alguns alunos ainda pareciam assustados, e ouvi vários rumores e sussurros sobre o assunto, além de perceber olhares receosos, nervosos ou até mesmo acusatórios em minha direção, essa convicção me abandonou. Nem mesmo quando ouvi Thaís, que só apareceu na escola no fim da semana, chorar em meu ombro seus medos e tudo o que vira naquela noite. Nem mesmo com sua defesa e desespero frente à efemeridade da vida.

 O fato de ela ter sorrido e me agradecido por tê-la feito se sentir melhor dizendo tudo isso, a convencendo de que ela deveria fazer como eu, seguir em frente, e uma vez que a vida realmente é muito curta, deveria aproveitá-la, como a vi fazer logo depois, convidando Pedro para sair, apenas comprova a veracidade da minha conclusão.

E foi com esse pensamento que me deitei para dormir todas as noites, após conversas e sessões de namoro quase intermináveis com Marcelo na varanda da minha casa, tendo a graça de ter sonhos bons. Até hoje à noite, quando acordei de um pesadelo gritando o nome de Dan.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Capítulo 3 - Recomeço


Sinto a mão de Dan contra a minha boca. O meu grito de pavor é abafado, e talvez seja por isso que a palma de sua mão esteja tão quente, quase queimando os meus lábios, embora a sensação não seja ruim. Sinto o seu corpo enrijecido contra o meu, a sua respiração ardente arrepia os pêlos da minha nuca, embora eu não sinta frio.

Sua outra mão está na altura da minha cintura. Ela segura uma arma num ângulo de 90º. Percebo que nunca havia visto uma arma tão de perto, eu diria que ela é quase bonita. Preta e com um ar moderno, e com detalhes prateados que brilham com as luzes do salão. Sinto que se eu me mexesse um pouco poderia até tocá-la, mas não consigo, eu não posso sequer me mover.

Paralisada no abraço mortal de Dan a morte me parece certa, embora o seu abraço pareça surpreendentemente protetor. Só me resta olhar para frente, pois a sua mão ainda segura na minha boca me impede qualquer leve movimento da cabeça, e me deparo com outra arma. Era estranho que na primeira vez que eu via de perto tal objeto, ele já viesse em dobro.

Mas reparo que a outra arma está apontada para mim, e imagino que no meu corpo haja o mesmo ponto de luz vermelho que há no corpo dele, apesar de ele ainda não ter reparado. O olhar dele parece feroz e ao mesmo tempo satisfeito por estar no controle da situação, até perceber seu engano letal.

Como as emoções são fugazes, e a própria vida. Sinto o desespero surgir em seus olhos, e o percebo como um reflexo do meu próprio temor. Parecemos dois gladiadores numa arena, sabendo que apenas um sairá vivo do embate. Eu deveria ter me entregue. Não teria chance contra ele. E ele sabia disso quando entrou na briga. No entanto, Dan, ainda que parecesse uma ameaça, agora me dava uma estranha sensação de segurança.

Vejo seus olhos assustados. Ele ainda segura sua arma contra mim, entretanto parece começar a tremer. Ele está paralisado, assim como eu. A iminência da morte pode dar forças sobre-humanas às pessoas. Ou pode paralisá-las. Não as permitindo mexer ao menos um músculo, fazer qualquer coisa, a não ser assistir admirada e silenciosamente seu próprio fim.

Seus dedos tremem no gatilho, e me pergunto quando aquilo acabará, até que Dan, num movimento perfeito dispara um tiro contra a vida do meu duelista. A peça de metal perfura-lhe a carne e queima-lhe o peito. Os tecidos do seu coração se rompem e flamejam dando passagem à bala que se aloja em seu cerne. Posso quase ouvir seu grito de dor que não chega à sua boca, enquanto suas pernas pendem, e seus joelhos se apóiam no chão, mas não suportam seu próprio peso, permitindo que seu corpo vá de encontro ao solo do qual nunca mais sairá.

A mão de Dan se afrouxa no meu rosto e sem me olhar ele me ordena que vá para o banheiro. Impeço-me de pedir que ele não me abandone, que estou com medo e não quero ficar sozinha. Mas não tenho sucesso, e ouço minha voz pedindo que ele fique ao mesmo tempo em que acordo no meu quarto, encharcada de suor.

Abraço-me ao meu lençol que também está molhado assim como minha camisola, e me pergunto como posso ter suado mesmo sentindo tanto frio. Ligo o meu abajur e percebo que está tudo em seu devido lugar. É estranho que no meu sonho tudo tenha parecido tão mais real e com tantos mais detalhes que na própria noite em que tudo aconteceu, apesar de que após uma semana, aquela noite tornava-se cada vez mais distante e irreal, e eu começava na medida do possível até a esquecê-la. Pelo menos era o que eu pensava, até agora.

Dirijo-me ao banheiro, lavo meu rosto e encaro meu reflexo. Minha face cansada e meus olhos assustados parecem-me estranhamente familiares, e Dan volta em minha mente com ainda mais força. Eu não o havia esquecido por completo, ele só me parecia um passado distante e esquecido. Ou pelo menos que eu tentara esquecer.

Com a água morna do chuveiro escorrendo pelo meu corpo e com o doce cheiro do meu sabonete a calma começa a retornar. Com os cabelos molhados presos numa toalha, ligo a luz do meu quarto e percebo que não conseguirei mais dormir.

É o mesmo quarto em que eu vivera toda a minha vida. Ainda com as paredes cor-de-rosa, renovadas a cada ano, combinando com o piso e a mobília brancos. Com o tempo apenas o guarda-roupa aumentara de tamanho para comportar as roupas e sapatos que se avolumavam, assim como a cama. No entanto ainda guardando a mesma essência aconchegante que minha mãe sempre providenciara.

Percebo-me fitando uma foto dos meus pais com uma bonita criança de olhos e cabelos castanhos sorrindo, apesar da falta de um dos seus dentes incisivos. Minha mãe, com seus cabelos castanhos e cacheados soltos e bagunçados pelo vento, abraçada a um belo e alto rapaz de cabelos muito escuros esvoaçantes.

Mal posso descrever o desespero da minha mãe ao acordar no domingo, o dia seguinte à minha festa de aniversário, e ser surpreendida com as notícias da festa, com lágrimas brotando dos seus olhos ao me abraçar em aflição. Ela culpou a todos, à segurança, ao meu pai, e até a mim mesma por ter insistido tanto em ter uma festa longe de casa, mas logo se desculpou, chorando ainda mais e me abraçando novamente.

Meu pai tentou acalmá-la, sem sucesso, até minha mãe se distrair reclamando com as empregadas do almoço que ainda não fora feito, dos móveis que não foram lustrados e do chão que não fora encerado. Era estranho que as empregadas parecessem assustadas e até distraídas, no entanto assim que começaram as reclamações, retornaram a seu trabalho habitual.

O almoço foi calmo em comparação à manhã, e o assunto só fora mencionado por meu pai, que rompendo com seu costume, atendeu o celular à mesa e nos informou de que as investigações haviam se acalmado, que nós não seríamos mais importunados com perguntas pela polícia, e agora acreditavam o assassino se tratar de algum adolescente que arranjara uma arma e decidira fazer uma brincadeira com trágicas conseqüências. Não fora identificada a família da vítima, portanto a investigação não seria prorrogada, devendo-se encerrá-la ou apenas arquivá-la ainda no decorrer da semana.

Não sabia se me sentia aliviada com essa notícia e por perceber que nos jornais impressos e televisivos pouca menção fora feita ao episódio, ou culpada. Eu não tivera coragem de confessar a ninguém o que realmente acontecera, e por isso a justiça não seria feita. Uma vida fora interrompida e o culpado estava solto, outras pessoas poderiam morrer por suas mãos. Contudo ele salvara a minha vida, pelo menos era o que eu acreditava. Seria quase uma legítima defesa, uma vez que eu não saberia me defender, e ele o fez por mim.

No entanto, por que ele estava armado? Ele previa que aquilo aconteceria? Talvez ele temesse por sua segurança, e andasse armado para se defender. Ou o seu passatempo era matar pessoas. Por mais tempo que eu me fazia tais perguntas, mais qualquer oportunidade de dar o meu depoimento se esvaía. A investigação já se concluía de uma maneira negligente, todavia todos pareciam satisfeitos com o resultado da perícia, apesar de me sentir culpada por ele não ter nem ao menos uma família para chorar sua partida. E mesmo que eu dissesse qualquer coisa, haveria provas?


Bárbara, Martha e Luana vieram me visitar na mesma tarde para conversarmos e tomarmos banho de piscina. Eu não tinha a mínima vontade devido às circunstâncias, contudo ao ver o sorriso de minha mãe recepcionando as meninas e pedindo-lhe que aproveitassem o sol e a piscina e esquecessem qualquer problema, decidi me esforçar para mostrar que estava bem. E assim ela também estaria, como pude comprovar ao vê-la satisfeita consigo mesma enquanto eu subia as escadas para colocar o meu biquíni.

Elas pouco comentaram o assunto, até mesmo Bárbara. Pois estavam extremamente interessadas no meu namoro com Marcelo. Até mesmo Luana não pôde conter um grito de agitação quando disse que estávamos mesmo namorando. Martha estava extremamente orgulhosa de si mesma pelo absoluto sucesso de seu plano, eu não pude deixar de sorrir e compartilhar um pouco da animação das três, e nem mesmo corrigi Martha de que a idéia fora de Esther.

Ainda tentei perguntar se elas haviam me observado enquanto conversara com Dan, e se haviam visto alguma coisa, Martha negou, confessando que não perdera de vista Bianca e Alexandre, e Luana não prestara atenção por estar entretida numa conversa com Thaís sobre a proximidade do vestibular, e Bárbara logo após dizer que ficara tentando conversar com Esther sobre como arranjar um namorado, percebeu o furo e exclamou com os olhos arregalados:

__Por quê?! Havia algo para ser visto?! Vocês se beijaram, Manu?! __Gritou, chamando imediatamente a atenção de Martha e Luana que haviam mergulhado novamente na piscina.

__Não! __Gritei de volta, não sabendo se de susto por Bárbara ter percebido a deixa da minha pergunta, embora não adivinhando a situação que perdera, ou pela impossibilidade de sua hipótese, embora ela não me parecesse ruim em absoluto. __Não. Nós só conversamos.  Eu só queria saber o que vocês acharam dele... __Gaguejei.

__Eu só reparei que ele era bonito. Ele vai ficar quanto tempo na cidade? __Perguntou Luana com receio, com sua pele clara subitamente tornando-se rosada.

__Lu! __Exclamou Martha estupefata, sorrindo da amiga que ruborizava ainda mais. __Você gostou dele?! Hum... Que evolução!

__O que foi?! __Perguntou Luana um pouco mais calma, alisando distraidamente os cabelos escuros molhados, evitando o olhar surpreso de Martha. __Não foi só a Bárbara que conversou com a Esther ontem. Ela disse que eu tenho que me arriscar mais.

__Hum...__Prosseguiu Martha, amarrando seus cabelos louros curtos tingidos, enquanto se espreguiçava numa das cadeiras que rodeavam a larga piscina, aproveitando o sol da tarde.__Ele parecia bem bonito mesmo. Mas com um ar de mais velho. Não faz muito meu tipo. Porém, acho que a Manu consegue para você o telefone dele, não?

__Eu não tenho. Eu nem pedi. Não vi motivo. __Respondi rapidamente surpreendida por minha irritação súbita.

__É. Ele era bonito, mas com o Marcelo na jogada devia ser difícil pensar em outro cara. __Comentou Bárbara com desdém. __E ele parecia meio sinistro também.

__Falando nele. __Sussurrou Martha lançando um olhar atrás de mim, e por um instante imaginei Dan na minha casa. Não pude evitar sentir um arrepio percorrendo meu corpo, embora o dia estivesse completamente ensolarado e quente. Vencendo a paralisia que me dominava, virei-me para a direção em que as três meninas olhavam, deparando-me com Marcelo, numa camiseta regata branca que nos dava uma perfeita visão de seu peito definido pelas horas de academia e natação, e um calção preto folgado, com uma sandália havaiana.

Eu senti um alívio ao vê-lo se aproximar, embora um pouco de frustração me atingisse. Ele sorriu ao me distinguir entre as garotas, e tirou os óculos escuros quando me levantei. Ele me observou dos pés a cabeça, e timidamente percebi que estava apenas de biquíni, sem nem ao menos uma canga. Marcelo não pareceu achar isso ruim, e me abraçando, embora eu estivesse ainda molhada do mergulho que dera há alguns minutos, me beijou deixando as meninas estupefatas.

Ainda me tendo em seus braços, embora tivesse parado de me beijar, deixando-me sem fôlego, ele recolocou os óculos escuros e cumprimentou as meninas com um sorriso que fez Martha voltar para a piscina, talvez tentando se reprimir para não atacá-lo, como eu sei que ela faria se não fosse eu que estivesse com ele.

Minha mãe chegou logo em seguida acompanhada de uma das empregadas que trazia uma pesada bandeja com sucos de frutas e sanduíches naturais. Ela sorriu e disse que fora o máximo de saudável que conseguira achar, uma vez que nós garotas não deveríamos abusar dos alimentos industrializados que nos forçam a comer em todos os lugares. E então ela percebeu Marcelo sentado ao meu lado, mas se seu sorriso serve de indicativo, ela não pareceu se incomodar por ele estar com seu braço rodeando minha cintura.

Marcelo não demorou em se apresentar beijando cavalheiramente a mão da minha mãe, cujos olhos brilharam do que parecia ser felicidade e orgulho por sua filha ter conseguido tal garoto, como ela não deixaria de comentar várias vezes no mesmo dia.

As meninas foram embora no final da tarde, não antes de terem uma privilegiada visão do corpo do meu namorado, quando logo após minha mãe ter se despedido e entrado na casa, e o calor ficar quase insuportável, Marcelo pediu licença e tirou sua roupa, trajando apenas uma sunga preta, que contrastava com sua pele clara, mas de um modo extremamente saudável, devo comentar.

Marcelo, convidado para o jantar por minha mãe, não pareceu nem um pouco desconfortável como eu acredito que ficaria ao conhecer seus pais. O jantar fora organizado apenas no fim da tarde, mas mesmo assim, graças ao perfeccionismo absoluto da minha mãe, no início da noite, estávamos os quatro, incluindo meu pai que acabara de chegar do escritório no qual passara a tarde, sendo servidos de um saboroso jantar que consistia em três pratos e variadas sobremesas.

As conversas se direcionaram, de uma forma que espero não ter parecido investigativa ou interrogativa, a Marcelo, sua família, planos para o futuro, preferências, hobbies. E embora eu pudesse perceber o aperto de sua mão na minha, por debaixo da mesa, mais tenso, suas respostas pareciam agradar imensamente minha mãe, que sorria e acenava a cabeça em concordância, e não desagradar a meu pai.

Olhando para aquela reunião familiar, a cena da noite anterior parecia irreal, e era quase difícil acreditar que ela ocorrera. E decidi que eu não tinha nada a ver com o que ocorrera. Fora uma triste coincidência que aquela morte trágica acontecera justamente na minha festa de aniversário.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Capítulo 2 - Êxtase (parte 2)


O braço de Marcelo estava protetoramente em minha cintura, quando vi meu pai entrar no salão. Sua entrada coincidira com a da polícia, que logo se posicionou ao redor do corpo, ainda praticamente intacto. Uma psicóloga chegara e começava a acalmar Thaís, que parecia menos nervosa. A maioria dos convidados já havia ido embora, e os que permaneceram se reuniam em grupos como que para se protegerem se o assassino ainda estivesse entre eles, algo que eu não podia afirmar, pois não encontrara o rosto de Dan entre os presentes.

Meu pai, ao me ver, veio me abraçar angustiado, e eu podia ver seus olhos entre furiosos e assustados, embora seu rosto parecesse um pouco aliviado por me ver sã e salva. Talvez ele soubesse do risco que eu correra, ou qualquer pai estaria na mesma situação se sua filha estivesse numa festa em que alguém fora assassinado, ainda mais se a festa fosse da sua filha num lugar de acesso restrito.

Marcelo se afastou educadamente após cumprimentar o meu pai, que apenas deu um ligeiro aceno de cabeça em resposta. Após verificar repetidamente a minha segurança, confirmando que nada estranho ou perigoso acontecera comigo, me perguntar o que tanto eu vira do acidente, fato que omiti, e explicar que não acordara minha mãe para lhe poupar o sofrimento, pediu para que Marcelo cuidasse de mim, enquanto conversaria com os policiais e tomaria as medidas necessárias. Também me pediu para ficar rodeada do máximo de pessoas e ficar atenta a qualquer pessoa desconhecida.

Obedeci às suas determinações e logo me vi rodeada pelo grupo de meninas que haviam me entretido no início da noite e outros convidados. Esther conversava com o barman que estava completamente vestido e composto, nem se assemelhando ao dançarino de música latina de outrora. Luana parecia desinteressada. Thaís já havia sido levada para casa pelos pais, que pareciam não saber que ela estaria numa festa, e sim dormindo na casa de uma amiga, eles pareciam irritados, mas saíram mais calmos após uma longa conversa com a psicóloga.  Bárbara contava a todos o máximo de detalhes que conseguira obter sobre o assassinato, e Martha tentava parecer assustada chamando a atenção de Alexandre, que não soltava Bianca, algo com que não me importei, pois o olhar de Marcelo me procurava por toda a noite, e suas mãos e seus lábios também.

Bárbara contava detalhes, que por mais que eu quisesse não poderia desmentir, afinal já contara para todos que não vira nada e não sabia de nada. Hipóteses sobre a identidade da vítima e até mesmo sobre o assassino eram as mais mirabolantes possíveis e impossíveis. Um professor da escola vingativo, principalmente o de Química, que odiava todos os alunos, um serial killer, um antigo admirador secreto meu, o que fez Marcelo me abraçar ainda mais apertado, com minhas costas contra o seu peito.

Bianca não perdeu a deixa e prosseguiu:

__E aquele cara com quem você estava conversando no bar, Manu? Quem era ele? __Perguntou com desinteresse, embora eu tenha sentido o corpo de Marcelo se enrijecer talvez de ciúmes ou irritação.

__Era um conhecido. __Comecei, mas logo vi os olhares de Bárbara, Luana, Martha e Esther em mim que sabiam ser ele um desconhecido. Se eu mentisse, elas poderiam desconfiar dele. E por algum motivo, talvez por ele ter salvado minha vida, ou por eu ter conseguido Marcelo no fim das contas, não queria que ele fosse um suspeito. Então, finalizei:

__Na verdade, eu não o tinha reconhecido. Mas ele é filho de um dos sócios do meu pai. Está na cidade só de passagem.

__Ele era bonito. __Completou Esther, encerrando o assunto.

            Já passavam das quatro horas da manhã, quando meu pai disse que iria permanecer até o fim das investigações. Ele mandaria um dos seguranças me levarem em casa, pois não era bom deixar minha mãe sozinha também. Antes que eu pudesse perguntar o motivo da preocupação com a minha mãe, ele respondeu que ela se assustaria se não encontrasse nenhum de nós dois em casa, caso acordasse no meio da noite.

            Marcelo, com um ar extremamente sério e responsável, pediu autorização ao meu pai para me deixar em casa, por já ter dezoito anos e ter carteira de motorista. Relutantemente, meu pai acabou por aceitar a proposta, e se despediu de mim com um beijo. Juntamente com a minha saída, a polícia decidiu deixar os demais convidados em suas respectivas residências, pois não poderiam ficar até tarde no local de um crime de tal magnitude.

            Ao sair, a polícia já sabia o tipo de arma que atingira a vítima, imaginava a distância, e sabia que fora com silenciador, além de uma destreza assombrosa. Acreditavam que não fora uma morte acidental, e a vítima fora selecionada, uma vez que não fora atingida por uma bala perdida, e sim uma única bala penetrada diretamente no coração.

            A vítima fora identificada como César Andrade Santos. Ninguém o conhecia, e não sabiam dizer como ele entrara na festa. Com suas roupas, foi encontrada sua carteira com alguns documentos de identificação. Nada mais havia sido encontrado. E me perguntei que fim teria levado sua arma. Ou talvez ela nem mesmo existira. E me indaguei o que realmente existira e o que fora produto da minha mente durante aquela noite.

            Marcelo me conduziu ao seu carro abraçando-me protetoramente. Ele me abriu a porta do passageiro, e antes de fechá-la, me beijou longamente. Enquanto ele se dirigia para a porta do motorista, olhei para a entrada da boate em que o meu maior objetivo era sair exatamente daquela forma, sendo levada para casa por Marcelo, após ter finalmente ficado com ele, mas nunca pensei que para que isso acontecesse tanta loucura teria que ter acontecido. Estava em dúvida se valia a pena, uma vida por um sonho concretizado. Será que realmente os fins justificam os meios?

            Ainda olhando para a fachada do salão, percebi mais um convidado saindo calmamente, sem compartilhar o desespero dos demais. Por um mínimo instante senti o seu olhar gélido no meu e, não sei se posso afirmar com certeza, mas por um instante acreditei ser o Dan. E não sei o porquê, ele não parecia muito feliz.

            Voltei o meu olhar para Marcelo que sorria sem parecer entender a minha expressão, a qual, olhando meu reflexo no pára-brisa, percebi como uma expressão de dor. Sorri despreocupadamente, e ele aliviado pôs o carro em marcha, mas quando olhei de volta para a fachada, só vi um corpo numa maca dentro de um saco preto sendo levado para uma viatura.



            Marcelo estacionou o carro na frente da minha casa, sem eu nem ao menos ensiná-lo o endereço. Ele se justificou dizendo que qualquer um na cidade sabe onde eu, e principalmente meu pai, moro. Ele me abraçou e me beijou demoradamente, e pediu para entrar. Eu recusei, já estava muito tarde, e poderia me visitar mais tarde se quisesse. Era o que ele mais queria, confessou.

            __Eu sei que é algo horrível de se dizer, mas apesar de tudo, pelo menos acabou tudo bem. Pelo menos entre nós.

            __Foi mesmo.

            __Eu sei que tudo foi muito conturbado, mas é tudo verdade. Eu gosto muito mesmo de você, Manu. __Confessou com seu olhar inseguro me avaliando, e talvez fosse o calor por nossa proximidade, embora a madrugada estivesse fria, percebi seu rosto ruborizado. __E eu queria que você fosse a minha namorada.

            __Eu... Eu adoraria. __Coloquei uma mão em cada lado do seu rosto e o trouxe para perto de mim. Ele era realmente bonito, com um ar juvenil e perfeito. Seus cabelos louros um pouco bagunçados, suas sobrancelhas e cílios tão claros, quase transparentes, seu nariz reto e harmônico, e sua boca suave e macia, que me mostrava um lindo sorriso, enquanto tentava entender a minha expressão. Seus braços fortes e firmes rodeando a minha cintura, e seu peito definido arfante. Beijei seu rosto e senti a textura de sua pele. Era extremamente agradável. Beijei-o, e senti sua língua receosamente em busca da minha, e cada vez mais segura se aventurando em minha boca. Ele beijou meu pescoço e agradeci pela calmaria que ele me trazia. O êxtase percorreu meu corpo, e fechei meus olhos para apreciá-lo, mas isso só me trouxe a imagem de Dan e a sua expressão de dor ao sair do salão, e depois senti o seu corpo perto do meu e sua mão contra a minha boca.

            Afastei-me de Marcelo sem fôlego, não sabia se pelos seus beijos ou pela lembrança de Dan.

            __Eu preciso entrar.

            __Já?!__Perguntou afônico, seus olhos aguçados no meu colo, e sua mão subindo pela minha coxa, o que me deixou enrubescida.

            __Esse dia já foi muito longo. __Completei resistindo à sua expressão de súplica.

            __E foi maravilhoso. Quer dizer, exceto pela parte... Você sabe. É porque tendo você aqui só comigo, e podendo beijar e abraçar você, o mundo inteiro parece perfeito e eu não consigo nem pensar em algo tão terrível como o que aconteceu.

            __Eu entendo. Mas não vai ser muito bom se meu pai chegar e nós ainda estivermos aqui.

            __É. Mas me deixa te acompanhar até a porta da sua casa, pelo menos.


            __Na minha casa, há um segurança, ele se responsabiliza por mim a partir de agora. E se eu te deixar entrar, pode ser que eu não te deixe sair.

            __Isso seria ótimo. __Sorriu, saindo do carro e abrindo a porta para mim do outro lado. __Não se esqueça de mim. Mais tarde eu passo por aqui.

            __Obrigada por tudo. __Disse sem saber ao certo o que agradecia, talvez por ele ser a única coisa que parecia real por toda a noite, sendo que no dia anterior ele parecia o meu mais remoto sonho.

            __Disponha. __Disse ele, sorrindo, embora não parecesse ter entendido. __E não se preocupe...__Continuou ele me abraçando enquanto eu apertava o interfone e me identificava para o Xavier, que parecia sonolento. __Tudo vai ficar bem. Nada dessa tragédia vai se repetir. __E por um instante, enquanto ele me beijava, eu acreditei.