quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Capítulo 7 - Assassino (parte 2)


Eu acordo com o cheiro de comida. Eu não comia nada há dias. Minha mente ainda sonolenta demorou a reconhecer onde eu estava, até que me percebi deitada no sofá no qual passara a maior parte da noite.

Espreguiçando-me, vejo Dan na cozinha, abrindo a geladeira e se dirigindo ao fogão. Ele agora veste uma camiseta cor de pele, ainda com a mesma calça jeans. Ajeito o meu cabelo e passo a mão pelo rosto. Eu me sinto melhor, e isso me parece injusto. Eu ainda deveria estar tendo os pesadelos, e acabo de acordar de um sono sem sonhos, calmo como o de uma criança.

A idéia de poder estar esquecendo meus pais me apavora. No entanto, talvez sejam eles atendendo a meus pedidos, deixando-me mais calma e forte para fazer o que deve ser feito.

Dan se vira, e quase posso ver um pouco de humor em seus olhos, talvez meu aspecto esteja mesmo tão horrível quanto imagino. O cheiro de comida faz meu estômago dar um ronco alto. Eu me aperto contra ele quando vejo Dan sorrir, envergonhada.

__Eu comprei algumas coisas para você. __Diz apontando para algumas sacolas de compras em cima do balcão. __Algumas roupas e produtos de higiene. Mas você pode comer logo se quiser.

__Obrigada. __Agradeço timidamente, sem encarar seu olhar quase divertido. Ele deve me achar imunda por imaginar que eu não me lavara no dia anterior, mas isso é melhor do que suspeitar de que eu usara seus produtos, como eu fizera, por não ter opção.

__Eu sempre cozinhei apenas para mim, então a comida não é muita boa. No entanto, eu não poderia arriscar que você quebrasse outro prato do restaurante.

Senti-me ainda mais envergonhada, especialmente quando percebo que ele deve ter limpado a minha sujeira, uma vez que o chão da sala estava impecável. Levanto-me quando ele volta a se concentrar na frigideira, na qual percebo estarem sendo fritos alguns ovos. Pego as sacolas e vou para o meu quarto sem olhar novamente para Dan.

Jogo o conteúdo das sacolas na cama. Há duas camisetas, um short, uma calça jeans, dois vestidos, escova de dente, creme dental, sabonete, desodorante, xampu, condicionador, e finalmente um pente. Envergonhada percebo algumas calcinhas e um pacote de absorventes. Felizmente, não encontro nenhum sutiã, seria embaraçoso vê-lo decidir seu tamanho. Por debaixo do meu vestido ainda estava minha mini blusa, mas não havia sinal do meu antigo pijama.  

Carregando alguns itens vou ao banheiro. É relaxante poder tomar banho e me cuidar confortavelmente. Meus cabelos agradecem quando os penteio. Finalmente, eles voltam ao seu original, um misto de liso e ondulado, com todo o seu brilho castanho.

Visto uma camiseta e o short. É reconfortante usar uma roupa nova e limpa. Lavo meu vestido na pia, e saio renovada. Dan está sentado no sofá assistindo ao jornal, enquanto toma em grandes goles seu refrigerante, com seu prato em seu colo. Ele parece realmente concentrado na reportagem, e tento não prestar atenção, evitando o risco de ouvir algo sobre minha família.

Felizmente, o assunto é mais brando. Tráfico. Nada mais banal.

__Tem algum lugar em que eu possa estender isso? __Interrompo, mostrando o vestido que pinga sobre a sacola na qual descansa.

__Eu faço isso. __Diz ele, colocando seu almoço no centro e se levantando. Entretanto, quando ele se aproxima para pegar o vestido, eu o afasto.

__Eu ainda sou sua refém?! Não posso nem ao menos ir ao quintal?! Eu pensei que isso não fosse um seqüestro.

­__Eu não quero que te vejam. __Ele diz tomando o vestido da minha mão, contra minha resistência.

__E como você fez para comprar todas essas roupas femininas? Ninguém desconfiou de que havia uma garota na história?!

__Eu não comprei.

__Você roubou?! Meu Deus! Você ganhou quase dez milhões de reais e precisa roubar roupas?!

Ele me encara entediado. Faz menção de falar, mas acaba se calando enquanto sai pela porta da frente, com meu vestido pingando no chão.

Aproveito para ir à cozinha e me servir. Mesmo que o almoço consista em ovos fritos, arroz com ervilhas e salada de alface e tomate, me parece extremamente apetitoso. Sirvo-me de um copo de refrigerante, e sento-me no sofá, quando uma reportagem me chama a atenção.

Novamente minha foto com meus pais. Meu coração acelera e encaro a televisão paralisada. As lágrimas que já pareciam findas retornam. Levanto-me e me aproximo da TV como se assim pudesse estar mais perto dos meus pais, uma vez que nem uma foto deles eu tenho. A reportagem é curta, apenas diz que a causa do incêndio foi acidental, por um problema na instalação elétrica que já estava desgastada. As investigações estavam encerradas.

O vazio toma conta de mim. Investigações encerradas. Ninguém mais se importava com a morte dos meus pais. No entanto, elas logo seriam reabertas. Assim que eu fugisse e desse meu depoimento. Eu me importo com a morte dos meus pais. Isso é a única coisa que importa na minha vida nesse momento.

Antes de a matéria acabar, Dan entra pela porta e, pegando o controle remoto, muda de canal para um dos seriados americanos artificiais. Ele continua a beber seu refrigerante e encara meus olhos chorosos. Tento evitar seus olhos, voltando-me para minha comida que desce pela minha garganta como papelão.

__Uma conhecida comprou essas coisas para mim. E ao contrário de você, ela não faz perguntas.  E você vai continuar presa aqui até que entenda que é o melhor pra você.

__Eu não salvei a sua vida. E você já salvou a minha vida duas vezes. Não está mais endividado, e eu posso me cuidar sozinha.

__Realmente você não salvou a minha vida. Mas facilitou o meu trabalho, e ele é a minha vida. Não seria nada agradável se você tivesse me descrito para os policiais, ou me entregado quando eu anulei o Jean. Você me poupou de matar inocentes. Então vou recompensar você pelas vidas que salvou. __Finaliza, mudando novamente de canal, sintonizando num documentário.

__Mas a garota?!

__Que garota?

__A que você colocou no meu lugar?! Você a matou. Para me salvar.

__Isso é um detalhe. Ela já estava morta. Eu a peguei com um amigo. Aliviada?!

Eu não respondi, terminando de tomar o refrigerante, para me ajudar a engolir a comida que voltava a ter um gosto bom. Contudo, me surpreende que a resposta dessa questão seja sim. Eu estava aliviada. Mas não convencida.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Capítulo 7 - Assassino


            Eu não pude dormir. Eu não poderia dormir nem que eu quisesse. Se as imagens de meus pais morrendo já vêm a minha mente, sem eu nem ao menos fechar os olhos, o que me aconteceria quando eu adormecesse? Eu não suportaria aquele pesadelo novamente. Isso me apavora. Aliás, o que há de não apavorante na minha vida ultimamente?!

            Permaneço sentada no sofá, no mesmo lugar em que Dan me deixou envergonhada. Eu encaro o vazio da sala, perdida em sua escuridão. Ela não parece tão diferente da minha vida. Eu não sei que horas são, ou há quanto tempo continuo aqui, no entanto estou paralisada pelo medo e pela dor.

            Eu abraço meus joelhos contra o meu peito, protegendo-me do frio que se instalou em minha vida e que me persegue. Não encontro nenhuma fonte de calor, exceto as lágrimas que escorrem pelo meu rosto, deixando rastros de fogo, fazendo meus olhos arderem.

            É estranha a sensação de estar sozinha. Não ter por quem viver, e não ter ninguém por você. Eu sorrio lembrando-me de todos os meus sonhos. A vida parecia apenas estar começando para mim, e agora estou aqui, perdida e desamparada, apenas esperando silenciosamente o seu insidioso fim.

            Se eu soubesse que teria por tão pouco tempo meus pais e minha vida, tudo teria sido tão diferente. Há tantas coisas que eu queria ter feito, há tantas palavras que deveriam ter sido ditas. Sinto-me sufocar pelo silêncio. A dor me abraça e me embala em seu colo, sussurra uma canção conhecida em meu ouvido, dizendo-me que posso chorar. E é isso o que faço.

            Ainda abraçada às minhas pernas, deito no sofá em posição fetal, me perdendo em devaneios. Eu devia tê-los dito que os amava. Que os amo, na verdade. Mesmo que eles não mais estejam comigo, são a única razão de eu estar viva. Eu deveria ter sido uma filha melhor, ter obedecido mais a eles. Por que eu fui dormir tão cedo naquele dia?! Se nós tivéssemos ficado mais tempo conversando, talvez todos tivéssemos morrido juntos, como uma família.

            Eu deveria ter dito a minha mãe como a admirava, como a achava tão linda. Imaginar seu rosto lindo queimado me faz soluçar. Eu deveria ter dito ao meu pai que ele sempre fora meu herói, que eu nunca conhecera homem tão honrado quanto ele.

            Tento conter meus soluços para não acordar Dan. Embora pareça difícil, consigo silenciá-los. Eu não quero que ele veja minha dor, que perceba o quanto seus atos destruíram a minha vida. Não quero satisfazer as felicidades doentias de um psicopata.

            Sinto um nó em minha garganta que nunca será desatado. Como se as minhas lágrimas começassem a se extinguir. Mas elas não podem me abandonar agora, quando mais preciso delas. São a minha maior companhia. E o mínimo que posso fazer por meus pais é derramá-las.

Elas voltam, quando passo minha mão pelo pescoço, e não encontro mais o colar que fora da minha avó paterna, e que meu pai me dera no dia do meu aniversário, dizendo-me que eu era o seu maior orgulho. Relembrando da minha festa, recordo o pedido que fiz ao assoprar as velinhas do meu bolo de aniversário, um bolo de improviso com os meus pais antes de ir para o salão. Marcelo. Esse fora o meu pedido.

Eu não me arrependo de tê-lo feito. Entretanto, eu deveria ter pedido apenas que eu sempre tivesse minha família e meus amigos ao meu lado. E agora não tenho nada, nem família, nem amigos, nem Marcelo.

Ainda posso ver seus olhos e ouvir suas últimas palavras, quando se despediu de mim na quinta-feira, entre nossos beijos em seu carro.

__Então vai ser na segunda-feira?

__O quê?! __Perguntei arfante, distanciando meu rosto do seu.

__A nossa noite.

__Não, vai ser no domingo.

__Eu sei, mas a festa só vai começar lá pra meia-noite, né?!

__É. __Disse sorrindo, abrindo a porta do carro. __Segunda-feira, então.

__Você vai ver. Esse vai ser um dos melhores dias das nossas vidas. Nós nunca nos esqueceremos dele.

__Estou certa que sim. __Continuei sorrindo, e enquanto cumprimentava Xavier, o ouvi dizer:

__Eu te amo.

__Eu também amo você.

E aqui estou eu na segunda-feira que deveria ter sido um dos melhores dias da minha vida, segundo Marcelo. Nisso ele errou, mas estava certo quando disse que eu nunca me esqueceria dele.

Eu imagino Marcelo como estará agora, e isso me acalma. Imagino-o dormindo. Ele deve ter sofrido quando soube da minha morte, e de uma forma egoísta, eu quero que ele tenha sofrido. Não querido morrer, ou ter achado que a vida não fazia mais sentido. Apenas ter sofrido por ter perdido uma garota que ele amava.

Eu não sei se quando tudo isso acabar, se é que um dia acabará, quando Dan for preso, ou terminar o que planeja fazer comigo, e me libertar, procurarei por Marcelo.

Não sei quanto demorará para que isso aconteça, embora espere que seja em breve. Contudo, até lá, Marcelo terá organizado sua vida. Eu havia feito planos com ele, mesmo que apenas na minha mente. Eu nos imaginava indo para a faculdade, namorando, nos casando e tendo filhos, como qualquer garota sonhadora. E eu quero que ele realize esses sonhos, mesmo que não comigo.

Esses sentimentos bons me aliviam a alma. Talvez eu não seja uma garota tão má, responsável pela morte de seus pais. Pelo menos eu deixarei Marcelo livre para continuar sua vida sem mim. Não quero bagunçar tudo. Com certeza, ele deve ter se saído bem no vestibular, assim como espero que tenham ido as meninas.

Ele conhecerá garotas divertidas na faculdade, que o farão esquecer o trágico amor de colegial que ele teve na adolescência. Talvez elas fiquem com pena dele, embora ele já tenha naturalmente todos os atributos para conquistar qualquer garota.

A única coisa que eu espero é que ele guarde o seu anel, assim como o meu, que segundo Dan, ele deve ter tirado do meu dedo antes do enterro, e que nunca se esqueça de que eu sempre o amei, e possivelmente sempre o amarei, enquanto eu viver. Embora eu acredite que não seja muito tempo. Mas será eterno enquanto durar.

Eu beijo o meu dedo, no qual por tão pouco tempo permaneceu o anel que representava o nosso amor, e desejo que sua vida nunca seja tão devastada como a minha, e que eu sempre permaneça como uma lembrança boa em suas doces memórias. Isso já me deixa feliz. E qualquer mínimo de felicidade já é absurdamente o bastante para mim.

Meus pensamentos são interrompidos por Dan que sai do seu quarto, usando apenas sua calça jeans abarrotada, com o cabelo bagunçado, e parecendo sonolento. Ele nem parece perceber a minha presença, enquanto se dirige à cozinha, com passos lentos.

Eu me ajeito no sofá, me sentando e o observo se encaminhar à geladeira, pegando um copo d’água. Ele vira, parecendo notar pela primeira vez minha presença. Seu cabelo está quase engraçado, e eu poderia até sorrir, se ele não me assustasse e eu não o odiasse tanto.

Ele me encara com uma expressão estranha, como se eu fosse louca, ou talvez seja o meu aspecto que o assuste. Não me importo, mas imagino que o meu rosto deva estar todo inchado, e meu cabelo uma bagunça, uma vez que eu não o penteio há dias.

É com esforço que eu não desvio do seu olhar intrigante. Ele não fala nada e bebe a água em um só gole. Ouço o barulho do copo de vidro, quando Dan o deixa na pia de alumínio, enquanto encaro suas costas viradas para mim. Elas estão nuas e percebo algumas tatuagens com significados desconhecidos para mim. Também há uma tribal mais larga rodeando o seu braço direito. Eu nunca tive preconceitos com tatuagens. Mas isso o deixa ainda mais enigmático para mim.

Dan demora mais que o normal à beira da pia, com as mãos apoiadas na bancada, como se estivesse tentando se conter de fazer alguma besteira. A tensão de seus braços faz ressaltar ainda mais seus músculos definidos, e embora eu esteja assustada com o que ele possa estar pensando em fazer, sou incapaz de me mexer, enfeitiçada com seu magnetismo.

Eu o vejo se virar, passando a mão pelo cabelo, que surpreendentemente obedece a ele, voltando à sua forma normal, e me encarar, enquanto se encaminha para o mesmo local em que estivera sentado há algumas horas.

Eu não me movo, presa no seu olhar, esperando que ele faça o primeiro movimento. Ele ainda parece em dúvida, então tento sinalizar para que comece o que quer que esteja tentando fazer, o que o faz dizer, ainda olhando em meus olhos:

__Você faz idéia de quem ou do que eu sou? __Dan pergunta parecendo cansado e incomodado com a conversa que se iniciava.

__Um assassino?! __Eu pergunto, mais afirmando, sem esperar muito para responder.

__Pode se dizer que sim. Mas eu prefiro executor. Todas as pessoas querem matar alguém em especial, qualquer um que o incomode. E como elas não querem sujar suas mãos e têm bastante dinheiro para me pagar, eu faço isso por elas.

Eu permaneço em silêncio. A sala está escura, mas a luz do luar que entra pelas frestas da porta e das poucas janelas me permite ver Dan com detalhes. Ele parece atento a cada gesto e mudança de expressão minha, embora eu permaneça inerte e impassível.

__Alguém me pagou para matar seu pai. __Continua falando compassadamente. __Assim como matar sua mãe e você. E digamos que eu não fiz o serviço completo.

Dan parece esperar que eu esteja assustada. Na verdade, eu estou tão assustada que não consigo expressar. Tudo parece tão irreal, apesar de que eu não deveria me surpreender mais com nada, devido às circunstâncias. Todavia, isso é um absurdo. Quem pagaria para matar os meus pais e a mim?! Nós não tínhamos inimigos. Pelo menos não que eu soubesse. Talvez a incredulidade tenha transparecido no meu rosto, assim como a dúvida, pois Dan continuou.

__Eu não faço idéia de quem tenha sido. Você não precisa saber detalhes. No entanto, eu nunca entro em contato com os mandantes do meu trabalho. Eles me dão metade do dinheiro antes, eu executo, e eles me mandam a metade depois. Sem maiores contatos, eles só sabem do resultado. E eu já recebi as duas metades. Porque para todos você está morta. Eles encontraram o corpo dos seus pais na casa, assim como o da garota que eu coloquei no seu lugar.

__Quanto?__Eu pergunto lentamente. Dan parece curioso com a pergunta, e me olha em dúvida. __Quanto você recebeu por nossas cabeças?! Quanto valeu a morte dos meus pais, e a minha?!

__Eu não falo essas coisas. Na verdade, eu não deveria dizer nada para você.

__É a única coisa que eu quero saber.__Insisto encarando seu olhar.

__Três milhões de euros. __Responde relutante. __Um milhão por cabeça.

É impossível, digo para mim mesma. Quem pagaria quase dez milhões de reais pelas nossas mortes? É impensável. Continuo a encarar Dan tentando decifrar suas verdadeiras intenções. O que ele quer comigo afinal?! Eu o fiz ganhar um milhão de euros, o que era arriscado, pois ainda permanecia viva. Ele está me enganando. É impossível que seja verdade.

__É por isso que eu estou mantendo você em segurança. Eles não podem saber que você está viva.

__O que você ganha com isso?! Se te ofereceram um milhão de euros pela minha morte, porque você já não fez isso?! Manter-me viva, e agora querer me manter em segurança, com o risco de descobrirem, é muito mais complicado.

__Eu gosto de desafios. E você salvou minha vida. Eu quero retribuir. E se você for boazinha, eu levo você para fora do país, para um lugar seguro, onde você poderá recomeçar sua vida em total liberdade.

__Que vida?! __Pergunto começando a ficar alterada. Do que ele está falando?! Lugar seguro?! Recomeçar minha vida?! Eu não quero uma vida nova! Eu só quero minha antiga vida, meus pais, minha casa, meus sonhos, meu vestibular, meu namorado! No entanto, eu não disse isso para ele, porque alguém sem coração não entenderia.

__Eu sei que parece difícil, mas é a única opção.

__Difícil?! Única opção?! Você não sabe nada da minha vida.

__Eu sei muito mais do que você pensa. E não sei se você se lembra, porém eu não era o único.

E então eu lembrei. O homem morto na minha festa de aniversario com a arma. Ele realmente estava tentando me matar, no final das contas. E depois mataria meus pais do mesmo jeito.

__Eu lembro. __Respondo num sussurro, perdida em meus pensamentos.

__Por nada. __Ele responde enquanto se levanta e se encaminha para o quarto, embora eu não esteja tão certa de que diria obrigada.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Capítulo 6 - Fim (parte 2)


          Eu estou no quarto dos meus pais. Posso vê-los dormindo abraçados entre os lençóis. Eles ressonam ritmicamente calmos e despreocupados. Consigo quase ver minha mãe sorrindo segurando o braço de meu pai que rodeia sua cintura, se aconchegando em seu abraço, protegendo-se do frio.

            Eu também sorrio. A calma deles me apazigua e tudo parece perfeito. Até que percebo que não somos apenas nos três. Há alguém invadindo nosso momento familiar. Dan surge silenciosamente e encara a mesma cena que eu. Não entendo como ele pode ver tal momento de amor sem se encantar.

Dan desperta de sua distração e o vejo brincar com um objeto metálico. Ele sorri para mim enquanto derrama um líquido amarelo nas cortinas de seda do quarto e ao redor da cama dos meus pais. Ele pega novamente o objeto metálico cuja luz brilha na escuridão e o joga contra as cortinas, e não entendo o que ele está fazendo, até que sinto o calor insuportável do fogo que começa a consumir as paredes do quarto.

Eu tento alertá-los para que fujam comigo, mas percebo que não posso me mexer. Tento gritar para que Dan pare, para que não mate os meus pais, contudo ele me ignora. O pânico me invade, pois de alguma forma eu sei o que acontece depois. Luto contra a minha inércia, contudo nada acontece. E nem é mais preciso despertá-los, pois eles percebem o que começa a acontecer.

Vejo o desespero surgir nos olhos da minha mãe, que parece não poder se mover, sem reação. Meu pai levanta-se desesperado, tentando procurar uma saída ou algo que possa conter o incêndio. Ele parece perdido, pela primeira vez não sabe o que fazer numa situação de risco, mas tenta esconder seu desespero, fazendo-se de forte para consolar minha mãe que começa a gritar e a chorar. A dor que me invade não consegue me fazer reagir, e eu não sou capaz nem mesmo de gritar para libertá-la.

Meu pai a abraça, e ela se aninha em seu peito aos soluços. Ele afaga seus cabelos e sussurra algo em seu ouvido que, pelo estalar das madeiras sendo consumidas pelo fogo, não posso ouvir. Minha mãe para de gritar, mas percebo seu corpo se contorcendo em desespero contra o corpo do meu pai.

Uma roda de fogo se forma ao redor deles, e mal posso enxergá-los por entre as chamas. No entanto, encontro o olhar de meu pai que me congela o sangue, apesar do calor que me envolve. É um olhar de decepção, quase de dor. Minha mãe também me encara com um olhar de reprovação e horror. Eu não entendo. Eu não posso me mover, se eu pudesse teria os salvado, ou me juntaria a eles, atravessaria o fogo e invadiria sua cama, como sempre fazia quando criança e tinha pesadelos.

Eu tento dizer isso com o olhar, mas eles continuam horrorizados me encarando com incredulidade e desespero. Minha mãe desvia o olhar dos meus olhos, como se não suportasse mais me encarar e o desvia para as minhas mãos. Eu também olho para elas, e percebo que uma delas segura um recipiente de gasolina, agora vazio, e a outra o mesmo objeto metálico com o qual Dan brincara, e que percebo se tratar de um isqueiro.

Desesperada, tento dizer que não fora eu que fizera aquilo, mas meus pais desviam um olhar de enojamento e decepção de mim e voltam a se abraçar, numa forma de aproveitarem os seus últimos segundos de vida juntos. Eu tento em vão gritar para que eles me ouçam, que não fui eu, que não estava tentando matá-los, mas eles não me ouvem, e nem ao menos gritam quando o fogo termina de extingui-los.

Finalmente o grito de dor que me sufoca é libertado e acordo aterrorizada. Meu corpo inteiro treme involuntariamente e me abraço contra o meu peito, tentando controlar as batidas do meu coração que quase o fazem estourar.

As lágrimas jorram dos meus olhos, e não tenho força para tentar contê-las. O mundo gira ao meu redor e me sinto enjoada e enojada com a minha própria existência. Meu corpo está suado e meus pêlos eriçados, mas o frio que se instala em minha alma quase me impede de respirar.

Fecho os olhos e ainda consigo recordar a imagem cruelmente produzida pela minha mente de meus pais tendo seus corpos e suas almas consumidas pelas chamas. “Perdão!” Eu grito repetidamente numa tentativa de que eles me ouçam e me perdoem onde quer que estejam, mas isso não me acalma.

Levanto-me trêmula da minha cama, trajando ainda o meu vestido, agora suado, e desejando apenas um banho. Continuo a chorar quase involuntariamente quando abro a porta do quarto. A casa está escura, apenas a sala iluminada pela luz clara que sai da televisão.

Dan assiste a um desses programas de auto-ajuda que passam durante a madrugada, mas não parece prestar atenção à tela. Vestindo uma calça jeans abarrotada e uma camiseta de uma banda de rock, a qual desconheço, ele se distrai mudando os canais. Ele não se move, quando atravesso a sala, desistindo de ir ao banheiro, e me sento no sofá, de frente ao que ele está sentado. Os meus tremores diminuem, e paro de chorar. Eu não tenho porque temê-lo, não há nada que ele possa fazer que seja pior do que já fez.

Encaro seu rosto, como o de um espécime em amostra num museu. Ele passa por todos os canais em alta velocidade, até que joga o controle remoto em cima do centro, no qual já não há mais o vaso com flores murchas.

Eu não me assusto com seu gesto brusco, nem mesmo me movo quando encontro seu olhar entediado. Ele me encara friamente, mas não desvio o olhar, e o devolvo.

__O que você quer? Eu não gosto de conversar. __Dan fala finalmente.

__Eu quero assistir televisão. __Digo ainda tremendo.

__Ótimo. __Diz se levantando e jogando o controle remoto na altura da minha mão, eu não me mexo, então ele simplesmente bate no meu braço e se choca contra o centro novamente.

Dan parece em dúvida enquanto se encaminha ao corredor. Volta-se para mim e senta novamente no sofá, me destinando um olhar entre compreensivo e irritado.

__A culpa não é sua. Tudo bem? __Começa, procurando as palavras certas para dizer, parecendo quase condescendente. __ Você não precisa se culpar por tudo de ruim que acontecer a você.

Não são as palavras que eu esperava ouvir, e sinto as lágrimas voltarem com força aos meus olhos que ardem. Seus antebraços estão apoiados em suas coxas, e ele está inclinado em minha direção. Suas pernas alcançam o centro que, quando ele se aproxima mais, desliza em minha direção. Ele percebe que sua proximidade já é grande e volta a se apoiar no sofá, brincando novamente com o controle remoto.

Sou incapaz de me mover, e de uma maneira absurda, prefiro ficar aqui com Dan, a voltar ao quarto e meus pesadelos. Ele me passa uma sensação quase de segurança. É a única coisa que tenho, pelo menos por enquanto.

Poucas pessoas atingidas por tal tragédia devem ter tido uma oportunidade como essa. Estar a alguns passos, sem qualquer observador, do assassino das únicas pessoas que sempre amou.

Eu não sei o que essas pessoas fariam, tentariam matá-lo talvez, ou achariam um modo de entregá-lo à polícia. Todavia, por enquanto, eu apenas preciso dele para me impedir de dormir e me proteger dos meus pesadelos.

Até que ponto a culpa do que acontecera era dele? Ou mesmo minha? Dessa vez eu faria o certo. Meus pais haviam morrido. No entanto, deve haver um motivo para eu continuar viva. Talvez para evitar que Dan tirasse a vida de outras pessoas. Essa sensação me acalma e é reconfortante saber que ainda tenho uma missão.

Eu não tenho coragem de matá-lo, e não será assim que honrarei e conseguirei o perdão de meus pais. Muito menos quero me igualar a ele, tornando-me uma assassina. Eu arranjarei um jeito de fugir e dessa vez o entregarei à polícia e à justiça, como deveria ter feito antes. Contudo o tempo não volta, e eu devo fazer valer a pena o tempo que ainda me resta.

__Talvez porque seja sua. __Continuo, enxugando minhas lágrimas e encarando-o com raiva.

Ele me encara novamente, parecendo cansado e arrependido de não ter ido logo dormir. Dan parece em dúvida entre se levantar novamente e continuar onde está. Acaba se decidindo pela última, voltando seu olhar para a televisão que agora apresenta um programa com leilão de jóias.

__Você não sabe de nada. __Continua com o olhar fixo na tela.

__Eu adoraria saber. __Rebato não desviando o olhar quando seus olhos se fixam nos meus.

__Você não precisa saber. Seria demais para sua cabecinha.

__É claro que preciso saber! __Prossigo percebendo que o torpor começa a desanuviar minha mente. __Você me mantém em cativeiro há quatro dias! O que você quer de mim? Meus pais estão mortos! Foi você mesmo que fez isso. Não há ninguém para lhe pagar um resgate. Por que você me mantém presa aqui?

__Você acha que eu seqüestrei você? __Fala com sarcasmo. Seus cabelos cobrem seus olhos, porém posso sentir a raiva que eles emanam. __Você mesma acabou de dizer que não há ninguém para pagar o seu resgate. E se eu estou mantendo você presa aqui é para a sua própria segurança e para impedir que você faça alguma besteira.

__Minha segurança?! Quem pode ameaçar mais minha segurança do que você?! E qual a importância de eu estar viva?! Todos pensam que eu estou morta!

__Era isso que eu estava dizendo. __Dan continua a falar lentamente, como se fosse um grande esforço e como se explicasse a uma criança. __Você não entende.

__Mas eu quero entender! __Exclamo angustiada, no entanto Dan me ignora e volta a olhar para a televisão. Ele observa atentamente um anel de ouro branco entrançado, que me lembra o anel que Marcelo havia me dado há pouco mais de uma semana, mas que pareciam séculos. A nostalgia me invade, a lembrança da vida que eu deixara e dos planos que eu tinha. Eu não sei o que define a vida de uma pessoa. Sua simples atividade cerebral, ou o seu mundo, as pessoas ao seu redor, sua casa, sua família, seus amigos, seus sonhos e planos.

A segunda opção me é mais plausível e percebo que toda a minha vida se extinguira. E mesmo que eu ainda tenha atividade cerebral, sei que estou morta.

Olho para minha mão direita numa tentativa de relembrar a minha antiga vida, agora tão distante, e percebo com horror a ausência do meu anel:

__Cadê o meu anel?! __Grito para Dan que se vira para mim entediado.

__Que anel...

__O meu anel! __Exclamo estendendo minha mão em desespero.

__Eu precisei dele. Tanta coisa para se preocupar, e você se preocupa com um anel.

__Ele era importante...__Digo, chorando novamente, sob a perspectiva de nem ter mais uma recordação da melhor noite da minha antiga vida e do amor de Marcelo. __O meu namorado me deu na noite de formatura para nunca esquecê-lo.

__Não se preocupe. __Dan continua com um ar sério. __Ele já deve tê-lo recuperado.

__Como?!

__Assim como o seu cordão, do qual você ainda não sentiu falta, eu coloquei o anel no seu corpo, que foi enterrado no domingo.

­­___Meu corpo?!__Pergunto enquanto procuro o colar que fora da minha avó no meu pescoço, sem sucesso.

__O corpo da garota que eu matei no seu lugar.

E antes que eu possa me sentir culpada por tantas pessoas já terem morrido por minha culpa, vejo Dan se levantar abruptamente e desligar a televisão, me deixando na completa escuridão, que parece clara frente a cor que tinge o meu peito.

__Amanhã nós podemos conversar. Vê se tenta dormir. E pare de gritar meu nome enquanto dorme que eu acabo pensando que você realmente está me chamando. __Dan diz antes de fechar a porta do seu quarto, e eu agradeço que a sala esteja escura e que ele não tenha se virado para me olhar, pois teria percebido meu rosto em chamas.

domingo, 12 de agosto de 2012

Capítulo 6 - Fim


             A luz do sol entra por entre as persianas da janela do meu quarto, e parece que acordo de um sonho longo e perturbador, daqueles que você sabe que foi terrível, mas o qual não consegue recordar em detalhes.

            Minha cabeça está mais leve, e meu corpo não parece mais tão dolorido. Eu me contorço, numa tentativa de afastar o sono, enquanto me envolvo ainda mais nos lençóis macios. Encaro o teto do quarto, e não encontro as estrelas, talvez seja a claridade que entra pela janela que as impede de brilhar, mas tudo me vem em flashes de memória.

            De alguma maneira as únicas coisas que vêm a minha mente são Dan, meu quarto, fogo, carro, seringa, Dan, quarto de motel, Dan, banheira, seringa, carro, Dan, seringa, Dan. Sinto minha cabeça girar, mas não mais por estar dopada, e sim por perceber que nada foi um sonho, apesar de estar tudo tão confuso.

            Eu me levanto, sem saber ao certo com o que irei deparar. Ainda estou usando o meu vestido e encontro minhas sandálias à beira da cama. Olho-me no espelho, e não resisto ao impulso de arrumar o cabelo. Procuro ao redor do quarto, não tenho bolsa nem nada, nem mesmo vejo meu pijama ao redor. Abro as gavetas da cômoda e elas estão vazias. Nem um único pente.

            Passando a mão pelos cabelos, que desobedecem e continuam revoltos, e controlando o mal-estar que ainda sinto, não sei se pelas drogas que ainda circulam em meu organismo, ou pelo receio do que estarei para descobrir, abro a porta, sem maior adiamento, deparando-me com o silêncio. A casa está deserta, e trancada. Ainda tonta percorro repetidamente cada possível saída, tentando conter o pânico, o que se torna cada vez mais difícil. Todas as janelas têm tranca, e a porta não se meche quando giro a maçaneta e nem mesmo quando me bato contra ela em desespero.

            Não sei se a presença de Dan seria um consolo, mas a sensação de estar sozinha numa casa, que mesmo que eu gritasse, nenhum dos vizinhos me ouviria me apavora. E eu nem ao menos sei onde estou, ou que tipo de vizinho encontraria.

            Desisto de bater na porta e me concentro em reconhecer novamente o território, uma sala-cozinha, um banheiro, no qual tento me recuperar lavando o rosto, sem sucesso, achando que talvez assim eu consiga acordar desse estranho pesadelo. Vejo ainda os dois quartos, embora o que estivera entreaberto na noite anterior, agora esteja trancado. A casa é humilde e há outra porta no fim do corredor que também está trancada.

            Vasculhando a cozinha, não encontro qualquer objeto que poderia obrigar Dan a falar, nenhuma faca, ou objeto pontiagudo. Embora eu imagine que ele sorriria se me visse tentar ameaçá-lo.

Não encontro um único relógio, um calendário, qualquer indicativo de tempo e muito menos de onde eu estou, até que encontro a televisão. Eu a ligo e parece que a vida continua normalmente, programas de desenho animado, de culinária e variedades, e finalmente um telejornal. E então sinto meu corpo tremer sob a perspectiva de ver qualquer referência ao que acontecera.

            A jornalista começa dizendo a data e o horário. Já se aproxima do meio-dia, é segunda-feira, e eu estou a muitos quilômetros de casa. Faz três dias desde que eu tive consciência de qualquer coisa e as matérias se misturam sobre violência, corrupção, políticos, assassinatos, guerra do tráfico.

            Quando a mesma foto que eu mantinha no porta-retrato do meu quarto aparece na tela, junto com a âncora do jornal que começa a falar “Ainda não se sabe a causa do incêndio que causou a morte da família de Agenor Gonçalves, importante empresário do ramo de investimentos...”, eu me levanto aterrorizada. No entanto, antes que ela possa terminar sua fala e prosseguir sua matéria, sinto meu corpo tombar ao chão, tudo fica escuro, e desejo que nunca mais fique claro novamente. É o fim, e não há nada pior do que sobreviver a ele.



            Dan sacode o meu corpo parecendo preocupado. Ele parece mais aliviado quando abro os olhos. Sinto cheiro de comida, e as imagens ainda me parecem distorcidas, quando ele tenta me levantar e diz:

            __Já era para o efeito dos medicamentos terem passado. O que houve? Você está bem?

            Eu não consigo entender muito bem o que está acontecendo, assim como ele. Contudo, quando nós simultaneamente olhamos para a televisão ainda ligada no telejornal, mas falando de outra tragédia, imediatamente percebemos o que havia acontecido.

            Levanto-me num ímpeto de fúria e me jogo contra ele:

__O que você fez?! __Grito enquanto me debato contra ele, como fizera contra a porta, batendo em seu peito. __O que você fez?! __Continuo a gritar desesperada. As lágrimas jorram dos meus olhos, eu já me sinto sem forças, mas não posso parar de atacá-lo.

Dan não se defende, nem ao menos segura os meus braços, ele apenas se afasta impassível enquanto continuo a gritar, e o seu olhar antes preocupado parece apenas cansado:

__O que você fez com eles?! Você os matou?! Você é um assassino! Seu monstro! Seu doente! Assassino! Por que você fez isso?! Por que você não me matou também?! Por que você não deixou que aquele homem me matasse no dia do meu aniversário, já que ia fazer isso mesmo? Por que você fez isso?! Por que você fez isso?!O que você quer de mim?! Responde!

Eu me sinto enfraquecer, e derrotada me encosto a seu peito e começo a chorar soluçando, me apoiando nele para não cair novamente. Dan nem ao menos toca em mim, e me vejo ridicularizada. Afasto-me, encarando o seu rosto que não demonstra reação, parecendo quase decepcionado.

__O que você quer de mim?! Eu quero ir embora. Eu quero ir para minha casa. Eu quero os meus pais.

__Não sei se você viu no jornal, mas você não pode ter nada disso de volta. __Começa, olhando-me nos olhos, mas sem demonstrar o mínimo de empatia. __ Sua casa e seus pais não existem mais. O fogo consumiu tudo.

Eu continuo a encará-lo, enquanto reprimo espasmos de dor que poderiam contorcer meu corpo. As lágrimas são mais difíceis de evitar, e agora posso senti-las escorrerem pelo meu rosto.  Meus olhos ardem, e meu peito parece implodir. A dor que me aflige seria capaz de me matar, se não fosse o ódio que me faz querer vingança.

__Por que você fez isso?! Como você pode me dizer isso com tanta calma?! Por que você não me matou também?! O que você quer de mim?!

__São muitas perguntas. Você deveria se alimentar. Não come nada há três dias. __Diz ele, enquanto se vira e se dirige à porta. __Você não me denunciou para a polícia. Não salvou minha vida, mas estou grato. Achei que deveria fazer o mesmo por você, e retribuí o favor. E mesmo que você pareça agora arrependida, não posso ignorar o que fez por mim.

Ele fecha a porta, e dá uma volta na fechadura. Fico estupefata encarando o lugar por onde ele saíra. Então no fim das contas tudo era culpa minha. Eu deixara de entregar para a polícia um assassino, que agora matara meus pais. É Homem-Aranha demais para mim. Pego o prato de comida que está em cima do balcão da cozinha e o jogo com toda a minha força contra a porta. Ele se espatifa pelo chão, mas não chega nem perto do que eu tenho vontade de fazer comigo mesma.



Eu já havia eliminado a idéia de autoflagelação para me punir pelo que eu fizera. E como minha mãe mesmo dissera, a vida é feita de desafios, e por mais que eles pareçam difíceis ou até impossíveis de contornar e enfrentar, é só ter fé e calma que tudo ficará bem. Isso me parece impossível, mas é a única coisa que me faz querer continuar a viver.

Eu não sei mais porque não entregara Dan à polícia, mas sei que foi com as melhores intenções. E se a morte dos meus pais é uma punição por ter feito o que fiz, eu devo pagá-la, e não fugir dela, com a morte. 

Abraçada com o travesseiro, na cama e na casa de um estranho, enquanto o brilho da lua é a única luz que entra nesse quarto, tento me dar motivos a continuar viva.

Em dois meses, por duas ocasiões eu tivera o risco de ser morta, e Dan me salvara nas duas, por motivos que parecem obscuros para mim. Entretanto, deve haver uma razão, que talvez nem ele saiba. A morte dos meus pais não pode ter sido em vão. E muito menos minha sobrevivência.

Eu devo descobrir por que tudo aconteceu, mas a companhia de Dan não parece a mais segura. A polícia precisa saber que eu estou viva, e possivelmente seqüestrada. Só não consigo imaginar de quem Dan planeja receber o resgate.

Ouço o barulho da porta sendo aberta, e sendo arranhada pelos cacos de vidro espalhados pelo chão. Deito-me rapidamente, e finjo estar dormindo. Todavia Dan nem mesmo abre a porta do meu quarto para verificar se eu havia fugido ou mesmo estava viva. Talvez por confiar na segurança do meu claustro, o que deixa minha possibilidade de fuga ainda mais remota, ou ele simplesmente não se importa mais. E não sei qual das duas hipóteses me é mais dolorosa.

sábado, 11 de agosto de 2012

Capítulo 5 - Fogo (parte 2)


Consigo abrir meus olhos com grande esforço. Eles parecem insuportavelmente pesados, assim como minha cabeça, meus braços e pernas, todo o meu corpo. Eu estou sentada e presa, embora mesmo que estivesse livre, acredito que seria impossível me mover.

Olho ao meu redor com dificuldade, e posso enxergar sem clareza um homem ao meu lado. Ele parece estar dirigindo, e percebo que estou num carro, e o que me prende é o cinto de segurança. Isso não me parece menos assustador do que o que eu pensara antes, que estava presa numa cadeira elétrica ou numa sala de torturas.

As imagens que ainda estão recentes na minha memória, as quais afasto como um sonho ruim, me fazem lembrar de quem esse homem talvez seja, Dan. Ainda posso sentir o calor insuportável do meu quarto incendiado, apesar do frio que é emanado dos filtros de ar-condicionado do carro, e a última coisa de que me recordo são as estrelas que não mais brilhavam no teto do meu quarto, uma vez que a claridade era imensa, e elas eram consumidas pelas chamas.

Ainda posso olhar pela janela as árvores que passam como sombras na noite escura que nos envolve. Não consigo descobrir onde estou, nem aonde parecemos estar indo. No entanto, isso me lembra a fronteira do estado, a qual atravessara há alguns anos numa viagem de carro com meus pais.

Quando a imagem de meus pais vem a minha mente, e o pensamento desesperador do que pode ter acontecido com eles me aflige, Dan parece perceber minha agitação e com um estremecimento encontro seu olhar. Ele me encara com calma, e poderia dizer quase com ternura, não mais com o olhar frio e sério que o vira usar no meu quarto.

Sua mão segura meu braço, e seu calor quase me queima. Ainda com um ar calmo, ele fala:

__Calma. É melhor você voltar a dormir.

E é quando eu percebo que ele não segurava o meu braço apenas numa tentativa de me acalmar, pelo menos não a que eu esperava. Ele pára o carro, e o vejo retirar uma seringa repleta de um conteúdo transparente de uma pequena caixa. Ele levanta a manga do meu pijama, que se eu não estivesse tão aterrorizada teria percebido com vergonha que ainda o vestia, até a altura do meu cotovelo, e limpa a região anterior do meu cotovelo com um algodão seco.

Quando ele perfura minha veia com a agulha, e aperta o êmbolo, injetando todo o conteúdo, mal posso sentir a dor da injeção, uma vez que uma calma repentina e deliciosa me enleva. E antes que eu adormeça mais uma vez, percebo meu sorriso, que não é retribuído por Dan.




Minha cabeça dói, assim como todo o meu corpo. Pelo menos estou deitada agora numa confortável cama de casal, e percebo com alívio que estou sozinha. Mas logo meus olhos encontram Dan, parecendo adormecido numa poltrona, de costas para a televisão e a janela e de frente para mim.

Minha mente ainda não parece muito clara, mas reparo que não há nada me prendendo a cama. O quarto é pequeno, mas bastante arrumado. Há rosas vermelhas nos criados-mudos e algumas na cama, e embora pareça extremamente com uma cena de filme de Hollywood, acredito estar num motel. Afasto essa idéia da minha mente, e volto a olhar o quarto, ignorando as flores e o champanhe com duas taças vazias e um balde de gelo na mesa. Ele seria quase bonito, se não fosse o excessivo uso do vermelho nos forros das poltronas, no pequeno sofá, nas cortinas e nas roupas de cama.

Há um frigobar, e percebo um refrigerante quase vazio próximo a Dan. O quarto é ricamente mobiliado, como diria minha mãe. Pensar nela faz meu coração se apertar, e talvez seja isso que me dá impulso para tentar levantar, fugir.

Meus braços tremem violentamente quando me apóio neles numa tentativa de sair da cama. Luto contra o impulso da gravidade que age contra meu corpo, querendo empurrá-lo de volta aos lençóis de seda vermelhos.

Consigo me sentar à beira da cama, e é estranho não encontrar meus chinelos ao seu lado. O chão parece imensamente gelado aos meus pés. Observo-o à procura de qualquer tapete, e uma vertigem quase me joga contra ele.

__Você não deveria fazer isso. __Ouço Dan dizer.

Com dificuldade, levanto minha cabeça que pesa insuportavelmente, e encaro sua expressão fria, a qual não demonstra o mínimo de fadiga ou sono. Uma onda súbita de enjôo quase joga o meu corpo para frente, mas antes que eu possa sujar todo o chão aos meus pés, Dan me estende o balde de gelo, no qual esvazio meu conteúdo estomacal.

Ele retira os meus cabelos que caíam ao lado do meu rosto úmido e os segura atrás da minha cabeça, enquanto me alivio. Meu rosto está suado, e o cansaço me invade, mas me sinto melhor quando termino de vomitar.

Dan enxuga o meu rosto com uma toalha macia. O gosto é insuportável em minha boca, o que ele parece perceber, pois me levanta da cama, com um dos meus braços apoiado ao redor de seu pescoço, e seu braço em volta da minha cintura. Mal consigo andar até o banheiro, com minhas pernas que tremem a cada passo, e contra a minha vontade me apóio cada vez mais contra o seu corpo. Ele me senta cuidadosamente na beirada da banheira de hidromassagem repleta com espuma e pétalas de rosa.

Ele liga a torneira e lava o meu rosto. Eu tento empurrar sua mão, quando ele segura o que percebo ser a minha escova de dente, tentando pegá-la, numa tentativa ineficaz de dizer que não preciso de sua ajuda.

Dan empurra minha mão e diz enquanto começa a escovar os meus dentes.

__Tudo bem. Isso acontece com algumas pessoas. Você não deveria ter tentado se levantar.

Penso em qualquer coisa para dizer em minha defesa, ou atacá-lo, mas sei que mesmo que minha boca não estivesse ocupada, cuspindo a água, que ele me fizera ingerir para expulsar o restante da pasta, e mesmo que eu tivesse algo a dizer, o que eu não tenho, não conseguiria, pois minha fraqueza me impede até mesmo de resistir quando ele retira a camisa do meu pijama.

Encaro seus olhos assustada, e tímida por estar protegida apenas por uma pequena blusa que eu usava para dormir.

__Tudo bem. É só para você ficar mais confortável. Você está muito suada. E você não tem condições de tomar banho sozinha. E acho que não ficaria muito feliz se eu fizesse isso por você.

Eu o sinto inclinar cuidadosamente minha cabeça contra a banheira e lavar meus cabelos. Com uma toalha enrolada nos cabelos, e me sentindo surpreendentemente melhor, Dan me conduz à cama. Eu deito, me escondendo sob os lençóis, para que ele não tenha mais uma visão desconfortável da minha blusa curta.  

Dan aumenta a potência do ar-condicionado, e o vejo novamente retirar outra seringa da mesma caixa com o mesmo conteúdo transparente. Não consigo reagir, nem ao menos me mover, apenas sei que meus olhos transparecem o meu horror. E ouço uma voz que parece rouca e embargada, mas que percebo ser a minha, dizer:

__Não. __E o esforço de dizê-la quase me faz adormecer novamente.

__Tudo bem. Eu diminuí a dose. É melhor se você estiver dormindo, a viagem pode ser desconfortável e é longa. Você só não pode tentar se mover nem se levantar novamente.

E antes que eu possa juntar todas as minhas forças para dizer outro não, sinto a picada da agulha na minha outra fossa cubital e adormeço. No entanto dessa vez eu não sorrio. Mas Dan, sim.




            Eu desperto e relembro o que Dan recomendara, eu não deveria me mover ou tentar me levantar. Embora minha cabeça não esteja tão mais pesada e dolorida, apesar de minha mente ainda parecer enevoada, e eu não esteja mais deitada, e sim sentada novamente no banco do carro, acho melhor obedecer a ele.

            Ele surge ao meu lado, abrindo a porta do carro. Ao ver que meus olhos estão abertos, Dan me levanta e me ajuda a andar, mais me carregando, como fizera antes. Ele me ajuda a sair, e não evito imaginar que ele me carregaria nos braços se eu não estivesse desperta, e me reprovo inconscientemente por não ter fingido, embora acredite que ele perceberia a diferença.

            Meus pés tocam o chão e eles estão protegidos por uma das minhas sandálias que eu costumava usar em casa. Reparo na minha roupa, e com espanto me deparo com um dos meus vestidos de verão, coberta por um casaco desconhecido, sem saber que fim havia tomado o meu pijama.

            No entanto, meu olhar tenta fazer um reconhecimento da área, enquanto sou conduzida por Dan. Seu carro é esporte, parecendo importado, e tão escuro que quase se confunde com a escuridão ao redor. Olho para a rua, e ela parece fazer parte de um bairro residencial, com algumas casas esparsas. Esforço-me para ver se reconheço o local, mas em vão. Começo a acreditar que nem no mesmo Estado estamos.

            Dan pára em frente à porta de uma pequena casa, mas que parece aconchegante, impedindo que eu continue a tentar reconhecer onde estamos. Ele gira a chave na fechadura, e liga a luz, me adentrando numa pequena sala de estar quase receptiva, mobiliada com uma televisão e um conjunto de sofás ao redor de um centro de mesa com um vaso de flores já murchas.

            A sala se separa da cozinha americana por um balcão, na qual eu consigo divisar uma geladeira pequena, um fogão, um microondas, além de uma pia e armários. Ele me conduz por um corredor no qual há três portas, duas entreabertas, uma parecendo um banheiro e a outra um quarto. Dan me leva até a porta que permanece fechada, ao lado da porta do quarto, e logo me vejo num pequeno, mas aconchegante cômodo, mobiliado com uma cama de solteiro, uma cômoda com espelho e uma estante.

            Há um toque quase feminino no quarto, pelo menos ele parece mais arrumado do que o restante da casa, e me pergunto se e há quanto tempo Dan planejava me trazer aqui.

Ele retira com gentileza o meu casaco, e me segurando com um braço, puxa a colcha da cama com o outro, deitando-me e cobrindo-me com ela.  Eu me sinto mais sonolenta quando minha cabeça encosta no travesseiro. Dan dá um sorriso torto quando começo a fechar os olhos novamente, e o vejo pegar a caixa da seringas. E antes que eu possa reagir, o que não tenho certeza de que faria, visto que já começava a gostar da sensação que esse líquido transparente me causa quando circula no meu corpo, inebriando meu cérebro, percebo que é uma seringa com um líquido diferente. E enquanto Dan o injeta em minha circulação, e coloca o chumaço de algodão para conter o sangramento, diz:

__Está na hora de acordar, bela adormecida.